Cartão de crédito: gastos refletem novo padrão de consumo com a pandemia

8 de junho de 2020 - Por

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Os brasileiros gastaram R$ 297,7 bilhões nas compras com cartão de crédito, crescimento de 14,1% no primeiro trimestre de 2020, aponta o levantamento realizado pela Associação Brasileira de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs). A pesquisa também revelou que as compras online tiveram alta de 23,2%, somando R$ 86,7 bilhões e representando 29% do volume transacionado com cartões de crédito.

Diante de um cenário de crise econômica decorrente da pandemia da COVID-19 que impactou a renda e vem aumentando o endividamento das famílias, o uso do cartão de crédito é preocupante.

O que você vai ler:

  • Uso do cartão de crédito antes e depois da pandemia do novo coronavírus
  • Redução de renda e o padrão de consumo
  • Juros do cartão e endividamento das famílias
  • Controle de gastos: como usar o cartão de crédito

Compras com cartão de crédito antes e depois da pandemia

O isolamento social necessário para conter a disseminação do novo coronavírus eliminou alguns gastos, como transporte por aplicativos, almoço ou jantar fora de casa, o happy hour com os amigos, compra de passagens aéreas, entre outros e cedeu espaço para outras despesas.

A Elo, empresa de bandeira de cartões, realizou uma pesquisa sobre o volume de transações durante a pandemia do novo coronavírus. De 18 e 24 de maio, as compras no e-commerce com cartão de crédito apresentaram alta de 16% e entre as categorias que se destacam estão as lojas de departamento (135%), apps de entrega (134%), supermercado (132%) e vestuário (108).

Tathiana Jinno de Oliveira, analista de sistemas, conta que desde o início do período de isolamento social, os gastos no cartão de crédito – que antes eram com almoço fora, cafezinho e Uber – têm se concentrado nas compras de supermercado, padaria e utensílios para casa por meio de site ou aplicativo de delivery. “Eu moro com os meus pais que são idosos e a minha irmã, para não ficar saindo e correr o risco de trazer o vírus para casa, nós fazemos compras online”, diz.

A jornalista Flávia Bezerra relata que o gasto com transporte por aplicativo não aparece na fatura desde março, também não gasta com comida pronta de restaurantes ou delivery.

Ela afirma que só tira o cartão de crédito da carteira para as compras semanais no supermercado e a mensal na farmácia. “As compras com supermercado aumentaram muito, eu gasto o dobro por semana no supermercado, porém, ainda assim, o valor é menor e compensa porque antes eu gastava com refeições prontas”, avalia.

Perda de renda e o impacto no padrão de consumo

A pandemia escancarou as desigualdades no Brasil e vem mostrando que as famílias de baixa renda tem dificuldade em cumprir o isolamento social, recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Diariamente, pessoas que moram na periferia precisam se arriscar, utilizar o transporte público, assumir postos de trabalhos, muitas vezes, não essenciais ou buscar a informalidade para garantir o sustento.

Embora não existam dados oficiais sobre o período de crise do coronavírus, dados do IBGE analisados em 2019, apontam que o 1% mais rico da população – constituída por 2,1 milhões de pessoas – teve uma renda média mensal de R$ 28.659 no ano passado, equivalente a 33,7 vezes do rendimento da metade da população brasileira mais pobre, que ganhava R$ 850.

Economistas ouvidos pelo Nexo Jornal acreditam que a crise do novo coronavírus pode afetar ainda mais a distribuição de renda no Brasil e piorar o cenário que vivemos.

Nesse período de crise, os mais ricos reduziram o gasto com cartão de crédito em 29%, enquanto cliente de baixa renda mostraram recuo de 20% em maio, segundo o levantamento da Elo.

Com a perda de renda provocada pela crise do novo coronavírus, 43% dos brasileiros dizem que o pagamento de contas essenciais é prioridade, segundo a pesquisa da Boa Vista. Os entrevistados preferem pagar as contas de luz (72%), TV a cabo e internet (42%) e contas de gás (40%). Apenas 13% mencionaram priorizar o cartão de crédito.

Oliveira relata que teve o salário reduzido em 20% por conta da pandemia do novo coronavírus, mas está conseguindo fazer o controle de gastos devido ao corte de outras despesas.

“O primeiro mês foi apertado, porque eu fui pega de surpresa pela empresa que avisou poucos dias antes do pagamento. Mas eu consegui pagar tudo porque eu tenho reserva de emergência, resgatei uma parte do dinheiro e paguei tudo, então no mês seguinte eu fiquei mais atenta e consegui me programar para que não acontecesse novamente”, afirma.

Infelizmente, ter uma reserva de emergência para lidar com situações imprevistas não é a realidade de muitos brasileiros, visto que mais da metade (52,1%) não tem o hábito de poupar, segundo uma pesquisa feita pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil).

No entanto, mesmo em momentos de crise e perda de renda, a recomendação é poupar pelo menos R$ 10 para emergências.

Orçamento familiar: dívidas no cartão de crédito

O cartão de crédito costuma ser o grande vilão do orçamento devido às altas taxas de juros e o principal motivo de endividamento das famílias (76,7%), segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada pela Confederação Nacional do Comércio (CNC).

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Para se ter uma ideia, a taxa de juros total do rotativo do cartão de crédito oscilou de 327,1% para 313,4% em abril de 2020.

Vívian Rodrigues, planejadora financeira e fundadora do Papo de Valor, destaca a importância de entender o cartão de crédito como um forma de pagamento e planejar as compras.

“É preciso tomar cuidado, porque as compras vão chegar na fatura do mês que vem e naturalmente vamos precisar pagar essa conta. Se assumir o pagamento do valor mínimo, a bola de neve do endividamento se inicia. Tem que ter muito cuidado para não acarretar algo muito maior”, alerta.

Rodrigues acredita que a pandemia pode ampliar o número de famílias endividadas no Brasil que, atualmente, corresponde a 66,5%, de acordo com a CNC.

Ela explica que existem dois tipos de endividamento, o primeiro é chamado de ativo que é quando a pessoa vive um padrão de vida acima das condições financeiras dela. Por exemplo, alguém que ganha R$3 mil, gasta R$4 mil e entra em um processo de endividamento astronômico.

“O endividamento passivo é quando algum cenário externo, de muitas pessoas perdendo o emprego e renda com os contratos de trabalho suspensos, prejudica a gestão financeira daquela pessoa, impossibilitando que ela pague os seus compromissos e fique endividada. Os endividados passivos devem aumentar, sim, porque poucas pessoas conseguiram se organizar antes da pandemia para constituir uma reserva de emergência”, explica.

Cartão de crédito: como fazer o controle de gastos

Nesse cenário de crise financeira, o uso do cartão de crédito é, inevitavelmente, a forma como muitas pessoas conseguem fazer as compras no supermercado. Em geral, o uso desse meio de pagamento deve ser evitado – sobretudo se a pessoa não fizer o controle de gastos – , mas na atual situação especialistas concordam que não há problemas em utilizá-lo com cautela. “É muito complicado falar para não usar, mas use dentro do contexto de essenciais com alimentação, remédios e coisas nesse sentido”, diz Rodrigues.

Para não estourar a fatura do cartão, a dica é anotar todas as compras no papel ou na planilha. “Estabeleça uma meta semanal de gastos, incluindo supermercado, farmácia e as coisas que a gente precisa comprar com certa frequência e que são previsíveis. Imponha um teto e vá acompanhando o limite semanal”, aconselha.

Matéria atualizada às 23h.

Fotos: AdobeStock.

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Carol Nogueira
Carol Nogueira
Repórter do Finanças Femininas, fã de David Bowie e John Coltrane. Passa o tempo livre pesquisando textos da Sylvia Plath e assistindo séries na Netflix.
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