Cartão de crédito: por que o controle de gastos não é opcional

12 de março de 2018 - Por

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Mesmo com R$ 20 mil de limite, Fernanda*, de 27 anos, viu seu cartão de crédito ser negado em uma loja, em fevereiro do ano passado. Com a renda já comprometida com outras despesas, a servidora pública não conseguiu arcar com o valor da fatura, que ultrapassou os R$ 7 mil. Até aquele momento, ela não havia se dado conta de quanto os seus hábitos de consumo estavam lhe custando.

“Foi ali que percebi que precisava mudar.” Naquela época, seu salário era alto, mas nada sobrava. As compras se acumulavam, sem que ela soubesse exatamente o valor que viria na fatura. Segundo um estudo feito pelo SPC Brasil e CNDL com 601 consumidores, essa história não é única: 57% dos usuários de cartão de crédito não fazem um controle efetivo dos gastos.

Para ser mais específica, 28% das pessoas apenas consultam a fatura pela internet antes de fechamento, 15% a veem quando já está fechada e 13% fazem o controle apenas de cabeça. Existe, ainda, 1% que não faz qualquer tipo de acompanhamento.

E por que isso é um problema?

Se bem usado, o cartão de crédito pode ser um grande aliado à sua vida financeira: ele traz comodidade e rapidez na hora das compras, principalmente pelas opções de parcelamento e prazo para pagamento. Quando a pessoa não sabe o quanto gasta (ou pode gastar), entretanto, a situação é bem diferente – e não é difícil se perder e acabar com uma dívida maior do que o bolso. Foi isso que aconteceu não só com Fernanda, mas com a economista Iasmyn Ferreira, de 24 anos.

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“Eu não tinha nenhum controle, não me organizava e não tinha objetivos a longo prazo. Comprava muito e sempre parcelava – cheguei a dividir as compras em 12 vezes. Isso já gerava uma dívida enorme, mas o baque veio mesmo em 2013, quando meus pais se separaram, minha mãe perdeu o emprego e tive que começar a ajudar em casa.”

Sem espaço no salário para manter o padrão de compras, Yasmin realmente se viu no vermelho: entrou no cheque especial, no rotativo do cartão e precisou de empréstimos para cobrir as despesas. No ano seguinte, entretanto, quando viu seu salário aumentar por uma mudança de emprego, percebeu que era o momento certo para se organizar. “Foi uma época muito difícil e acho que fiquei meio traumatizada mesmo. Não queria mais passar por aquilo.”

Os tão temidos juros

O principal problema de não saber o quanto gasta no cartão de crédito vem do potencial de aumento da dívida. Mesmo com as novas regras do rotativo, quem enfrenta um parcelamento de fatura sabe que não é fácil conter os juros – que hoje ultrapassam os 327,9% ao ano no rotativo, segundo os últimos dados do Banco Central referentes a janeiro de 2018.

A estudante de design Pamela Cardoso, de 21 anos, conheceu de perto essa situação. Desde que começou a trabalhar, há dois anos, ela mantinha o pagamento do seu cartão em dia. No início deste ano, entretanto, quando entrou na faculdade, seus hábitos começaram a mudar. “Me descontrolei e o mais estranho é que não faço ideia de como gastei todo esse dinheiro.”

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Hoje, a estudante passa pelo segundo pedido de parcelamento de fatura, cujo valor já ultrapassou o seu salário, e está com parcelas da faculdade em atraso. “Tentei anotar as despesas em uma planilha, mas não mexo muito nela. Sempre acabo dando um passo maior do que a perna.”

Apesar de os juros altos serem uma realidade conhecida por muita gente, a pesquisa do SPC Brasil e CNDL mostrou que 59% dos participantes não conhece o custo do atraso dessa dívida – principalmente as mulheres, entre as quais o porcentual sobe para 66%. No geral, quatro em cada dez entrevistados já ficaram com o nome sujo em algum momento por não pagar a fatura do cartão.

O processo de colocar as finanças nos eixos

Pode não ser fácil mudar de hábitos, mas aprender a usar o cartão de crédito dentro da sua capacidade de pagamento é fundamental. E, para isso, o controle de gastos deve ser encarado como parte da rotina: seja por meio da verificação frequente da fatura ou de anotações em papéis, planilhas ou aplicativos.

Para colocar sua vida financeira nos eixos, Yasmin optou por pesquisar sobre o assunto e começar a anotar suas despesas em uma planilha. “Ainda não sou a pessoa mais organizada do mundo, por isso deixo o crédito só para casos de muita necessidade – nos outros prefiro pagar à vista. Mas foi uma mudança da água pro vinho.”

Desde 2014, a economista já pagou um intercâmbio com o seu dinheiro e criou o hábito de poupar todo mês. “Vejo que o processo de aceitar a minha própria imagem também foi importante para parar de gastar tanto. Se você olhasse a minha fatura, as compras eram quase todas em produtos de cabelo, maquiagem, sapatos…”

Depois do episódio da recusa do cartão, Fernanda fez um empréstimo consignado para cobrir a dívida, com o qual lida até hoje, e fez um corte brusco nas compras. “Foi muito difícil, mas vi que estava fora do controle. Hoje consigo viver com o meu salário atual, que é muito menor do que o que tinha naquela época.” Ela faz terapia, planeja os gastos ao lado do esposo e anota as despesas em aplicativos de organização financeira.

* Nome trocado para preservar a identidade da fonte. 

Fotos: Shutterstock

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Mariana Ribeiro
Mariana Ribeiro
Jornalista com sotaque e alma do interior. Longe das finanças, passa o tempo atrás de música brasileira, rolês baratos e ônibus vazios. Acredita que o mundo seria outro se as pessoas tentassem se ver.
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