Cineastas negras colocam a nossa marca nas telas do cinema

11 de agosto de 2018 - Por

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*Mônica Costa

A autoestima de uma população está intrinsecamente relacionada às referências que recebe ao longo da vida. No mundo moderno, as telas da TV e do cinema têm grande influência sobre a identidade de um povo. Nós, mulheres negras, que representamos pelo menos 30% dos brasileiros, não aparecemos neste cenário. E quando estamos lá, geralmente somos subjugadas e/ou sensualizadas. Papéis como jornalistas, advogadas, arquitetas, engenheiras, sociólogas, professoras ou cineastas, raramente são retratados.

“Eu defendo o meu lugar enquanto cineasta negra, sempre buscando estratégias de sobrevivência para a produção dos nossos filmes”, diz Thamires Vieira,cineasta baiana, formada pela Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e que dedica o seu talento para a produção de narrativas audiovisuais como um instrumento para o fortalecimento da identidade negra. “Adotamos o cineclubismo como uma ferramenta para formação do público para os nossos próprios filmes”, afirma Vieira, que é integrante do Coletivo Tela Preta e sócia da produtora Rebento, formada por outras quatro cineastas negras.

Dados da pesquisa Diversidade de Gênero e Raça realizada pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), não traz novidades. Também no audiovisual, os homens brancos são 75,4% dos diretores e 60% dos produtores. As mulheres negras sequer aparecem em tais cargos. Nos filmes brasileiros de 2016, as mulheres representaram 40% do elenco, já os negros, apenas 13,3%. Em 75,3% dos longas nacionais, os negros são, no máximo, 20% do elenco. Não há um recorte, mas não é tão difícil adivinhar qual a nossa parte neste quinhão.

Por isso, iniciativas como a Tela Preta e outros coletivos formados por uma geração de cineastas negras são imperiosos para quebrar estereótipos historicamente criado sobre nós e para desconstruir uma ideia, perversa, de que não somos bons suficientes.

Para Bárbara Cazé, pedagoga e curadora do projeto Cineclube Afoxé, a exibição de filmes que tenham mulheres negras como diretoras, roteiristas ou protagonistas estimulam o expectador a se ver como aquela mulher. “Somos protagonistas na vida, sempre estivemos no centro das cenas, e nas sessões do Cineclube damos visibilidade para esta nossa participação na sociedade”, diz Cazé. O projeto exibe, em diferentes espaços públicos ou culturais da região do centro de Vitória (ES), filmes de diretoras ou que tratem das condições de vida das mulheres negras.

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A curadora aponta um fato interessante: a maioria dos filmes selecionados para a mostra foram produzidos por cineastas cotistas, oriundos de políticas públicas. Um sinal evidente de que, havendo oportunidades, somos capazes de produzir importantes registros para o audiovisual. “Depois das exibições, promovemos rodas de conversas com especialistas sobre o tema abordado na tela e lideranças femininas (militantes, referência na comunidade, etc.). Os resultados têm sido tão positivos que chegaremos a dez exibições, ultrapassando o limite proposto no projeto enviado pelo Edital de Desenvolvimento e Manutenção do Cineclubismo da Secult, que eram sete”, comemora Cazé.

*Mônica Costa é jornalista, mãe de um garoto de 14 e de uma menina de 7 anos. Estudiosa de educação financeira e curiosa sobre a condição da mulher negra e o capital.

Fotos: Fotolia

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