Como meus pais me ensinaram a cuidar do meu dinheiro

14 de julho de 2015 - Por

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*Carolina Ruhman Sandler

Eu sou jornalista – daquelas jornalistas típicas, que sempre teve dificuldades nas aulas de matemática na escola, e trocava qualquer programa por um bom livro. Ainda hoje sofro para calcular porcentagens e preciso da calculadora do meu celular para fazer as contas mais bobas. No entanto, construí a minha vida profissional em torno da educação financeira.

O meu ponto é: você não precisa ser boa em matemática para saber cuidar bem do seu dinheiro. Você só precisa ter uma boa fonte de inspiração.

No meu caso, foram meus pais. Meu pai trabalha no mercado financeiro e a minha mãe é empresária. Os dois me passaram lições valiosas na hora de aprender a controlar o meu dinheiro.

Quando comecei a ganhar uma mesada, ainda menina, eles deixaram muito claro para o que aquele dinheiro devia ser usado. A mesada era para pagar o que havia de mais importante naquele momento: os lanches da escola e as revistinhas na banca. Mas se eu me organizasse, podia poupar para compras mais relevantes: um brinquedo fora de época, uma alternativa para quando ouvisse um ‘não’ deles frente a mais um desejo de consumo repentino.

A mentalidade poupadora nasceu ali. Nas minhas férias escolares, sempre passava o mês de dezembro ajudando a minha mãe em sua loja. Juntei meus primeiros “salários” e consegui comprar uma televisão de 14 polegadas para o meu quarto – uma conquista e tanto.

Na minha adolescência, ainda se usava talão de cheque, e antes de ter o meu primeiro cartão de crédito, meus pais me deram um talão. Ele veio com as explicações completas:  quanto podia gastar ali e como me organizar. Todo cheque que eu passava, tinha que anotar os dados e enviar para eles um relatório mensal. Mal sabia eu que já montava meus orçamentos.

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Quando comecei a viajar sozinha, a estudos ou com meus amigos, o combinado era o mesmo: anotar todos os gastos, saber o valor de cada compra e refeição, para entender quanto aquela viagem custava. Na minha volta, me sentava com meu pai para revisar os gastos. Ele me provocava: “quanto você acha que deve ser o seu salário para poder bancar uma viagem como essa sozinha?”. Nós fazíamos as contas juntos.

Hoje consigo ver que o objetivo era claro: me ensinar o valor do dinheiro, mostrar quanto cada desejo ou impulso custava, ver como o meu dinheiro podia acabar muito mais rápido do que eu gostaria ou imaginava. Aquela conta conjunta com meu pai foi para o vermelho algumas vezes, e vira e mexe levava um baita susto quando somava todas as despesas do mês para o meu famoso relatório. Desta forma, aprendi que se não cuidasse daquele dinheiro, ele acabava rápido mesmo. Se não olhasse para as minhas contas com regularidade, não tinha como saber o que estava acontecendo ali.

Nas férias de verão antes do meu aniversário de 18 anos, ganhei um presente inusitado do meu pai. Uma pasta azul, recheada de documentos: declarações de Imposto de Renda, clippings de artigos de jornais, os resumos dos gastos da família, relatórios de bancos de investimento sobre a economia do País e as principais empresas. Minha missão era dupla – ler todo aquele material e listar todas as minhas dúvidas, que seriam respondidas em uma série de almoços entre nós dois.

Foi o presente mais inesquecível que ganhei. Aqueles almoços viraram o palco de tantas e tantas conversas, sobre como o mundo funcionava, as empresas, a economia, o trabalho do meu pai, a minha família. Sobre como estava tudo interligado. Tenho uma filha pequena, mas muitas vezes já me peguei pensando em quais artigos e documentos vou querer colocar na pasta azul que vou querer dar a ela quando ela completar seus 18 anos.

Foram todas lições muito práticas, e que continuam comigo até hoje. Muitas viraram automáticas – como acompanhar meus gastos, fazer relatórios de despesas e saber exatamente como anda a minha conta corrente.

Mas elas não vieram todas do meu pai. Uma das maiores lições que aprendi sobre dinheiro foi com a minha mãe. Ela tem uma história única: filha de um pai rico, viu a família perder tudo quando ele ficou doente no meio da sua adolescência. Viu a mãe, minha avó, assumir o cuidado da família e começar a empreender, abrindo um negócio próprio. Ela se formou, começou a trabalhar no negócio da família e logo se casou. No meio da minha adolescência, meus pais se separaram. E minha mãe conta ter vivido tantas vidas ao longo de sua própria vida.

A lição dela? Ser independente não tem preço. Ela me ensinou a ter meu trabalho, a ter minha família e não me deixar consumir por nenhum destes aspectos da minha vida. Que dá para equilibrar tudo, ainda que seja (extremamente) difícil. E que não importa a minha situação conjugal, que eu devo sempre procurar manter a minha independência.

Acredito que esta seja uma boa receita: lições práticas sobre como lidar com dinheiro e uma dose enorme de inspiração. Valores claros sobre a importância de ter uma vida organizada e uma grande meta: ser sempre uma mulher independente.

 

*Carolina Ruhman Sandler é a fundadora do site Finanças Femininas e coautora do livro “Finanças femininas – Como organizar suas contas, aprender a investir e realizar seus sonhos” (Saraiva). Jornalista, tem 31 anos, é casada e mãe da Beatriz.

Crédito das fotos: Shutterstock

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Carol Sandler
Carol Sandler é fundadora do Finanças Femininas, a maior plataforma online do Brasil de empoderamento feminino através da educação financeira. Apresenta o quadro "Carol, cadê meu dindin" semanalmente no programa SuperPoderosas, da TV Band. Autora do livro "Detox das Compras (Saraiva, 2017) e coautora do livro “Finanças Femininas – Como organizar suas contas, aprender a investir e realizar seus sonhos” (Saraiva, 2015), junto com o economista Samy Dana. Estudou Jornalismo na PUC-SP e Economia e Relações Internacionais no Institut d’Études Politiques de la France, em Paris. Colunista do site da revista CLAUDIA e do portal Tempo de Mulher.

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