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Como organizar as finanças após a redução da renda

A crise financeira que eclodiu com a pandemia da COVID-19 desestabilizou as finanças de muitos brasileiros. O isolamento social, medida imprescindível para tentar conter a disseminação do coronavírus, deixou 15,7 milhões de trabalhadores afastados do trabalho e, entre eles, 9,7 milhões sem remuneração em maio. Os dados são da Pnad Covid19, versão da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) com apoio do Ministério da Saúde para conhecer os impactos do atual cenário no mercado de trabalho.

Outro levantamento divulgado no dia 17 – realizado pelo Instituto Locomotiva feito a pedido da Central Única das Favelas – aponta que 73% das pessoas pretas e pardas sofreram redução na renda devido à pandemia, enquanto entre as brancas o percentual cai para 60%.

O cenário é ainda mais catastrófico se observarmos o crescente número de desempregados. No decorrer de maio, a pandemia fez com que 1 milhão de brasileiros perdessem o emprego, de acordo com a Pnad Covid19. O desemprego cresceu semanalmente e atingiu 10,9 milhões de pessoas no final do mês, deixando a taxa de desemprego em 11,4%.

A Pnad Contínua, no entanto, indicou que a taxa de desemprego ficou em 12,6%, somando 12,8 milhões de pessoas desempregadas no trimestre terminado em abril. Ao G1, Cimar Azeredo, diretor adjunto de pesquisas do IBGE afirmou que não se pode comparar os dados da Pnad Contínua com os da Pnad Covid por conta das diferenças metodológicas.

Diante desses números, você, parentes, amigos e pessoas próximas que passaram por essa situação devem ter um único objetivo no momento: sobreviver. E para isso, é importante ter consciência da sua vida financeira considerando o período conturbado que estamos vivendo.

Não temos uma fórmula mágica, contudo conversamos com um especialista para tentar te ajudar a organizar as finanças. Confira.

Como organizar as finanças após o corte do salário?

O número exponencial de pessoas diagnosticadas com COVID-19 e as vidas interrompidas todos os dias – 53.874 óbitos até quarta-feira (24) – dividem espaço com os resultados negativos da economia e o receio de contágio com a reabertura da atividade econômica. Somadas, essas informações sobrecarregam o emocional – sobretudo de quem perdeu renda e está preocupada com os boletos que não param de chegar.

Eduardo Amuri, especialista em educação financeira, afirma que antes de pensar em planejamento ou qualquer outra medida para deixar a situação financeiramente mais estável, é muito importante entender que é normal perder o controle e a disposição em épocas como essa.

“Estamos vivendo um momento sem precedentes e a última coisa que eu quero e, acho que as pessoas não querem também, é passar algumas horas na frente de uma planilha olhando para números que talvez não sejam agradáveis. Então, está tudo bem se sentir sobrecarregado em períodos como esse”, enfatiza.

Amuri conta que tem observado alguns discursos de influenciadores na internet que consideram este o período para mudar de vida. “Não, não é momento para mudar de vida, é hora de sobreviver e ficar em casa”, afirma.

Vida financeira: como planejar os próximos meses?

A crise do coronavírus nos colocou em alto mar. No entanto, algumas pessoas estão a bordo de um transatlântico e são atingidas por ondas mais leves. Enquanto outras, estão em pequenos barcos e são impactadas por uma tsunami. Considerando esse quadro no qual, em um primeiro momento, não temos controle, é essencial ter consciência da sua vida financeira.

Amuri explica que investir tempo em um planejamento que é muito complexo e, por consequência, demanda muita energia é um péssimo caminho. Por isso, é importante elaborar algo simples que vai auxiliar a sua tomada de decisão.

“O planejamento serve para dar um certo alívio e pensar que temos algum tipo de controle sobre a situação. Talvez seja um pouquinho ilusório às vezes, mas pelo menos tem uma previsão de como as coisas podem caminhar se x, y ou z acontecer. Então, a função do planejamento financeiro é fornecer clareza e pensar para frente”, justifica.

Para planejar os próximos meses, Amuri sugere dois exercícios que compartilhou em sua coluna no Valor Investe e desenvolve com mais detalhes em seu livro Dinheiro Sem Medo.

O primeiro passo consiste em fazer uma fotografia da sua situação financeira. Coloque na ponta do lápis todos os seus gastos fixos que são aqueles valores debitados da sua conta todos os meses, como aluguel, condomínio, contas de água e luz, telefone e internet, entre outros. Tente inserir os valores exatos, some tudo e anote o total.

Em seguida, você deve listar os gastos variáveis, como supermercado, transporte, compras, entre outros. Nesta etapa, é importante tentar colocar a média de valores que você gasta mensalmente ou, se facilitar, faça semanalmente para depois multiplicar por quatro e chegar no valor mensal. A soma dos gastos fixos e variáveis serão a base para o planejamento financeiro.

No segundo exercício, você vai desenhar o seu planejamento financeiro semanal. Pegue uma folha em branco e faça quatro divisões para representar cada semana do mês.

Na primeira semana do mês, insira o seu saldo bancário, despesas fixas e variáveis. Logo abaixo, fica o valor final que será a receita inicial da próxima semana. Dessa forma, você tem uma visão da sua vida financeira, consegue acompanhar e fazer projeções semanais para onde o seu dinheiro está indo.

Vale salientar que o planejamento financeiro não é algo inerte. Você faz uma vez, revisa, refaz, testa e começa tudo de novo outra vez.

Organização financeira: quais contas devo priorizar?

Em meio à crise, procure priorizar as contas essenciais, como aluguel, luz, água e alimentação. Para organizar as finanças, Amuri recomenda colocar as despesas no papel e avaliar a real necessidade de corte.

“Analise a sua situação com calma, priorize os boletos que não são tão supérfluos e corte o que precisar. Caso contrário, mantenha os seus boletos sendo pagos na medida do possível”, diz.

Outra dica importante é que se você tem uma diarista e a dispensou por conta do isolamento social, considere manter o pagamento se tiver condições. Afinal, ela também é uma trabalhadora que precisa alimentar a família e pagar as contas.

Para tentar economizar, você pode ligar na sua operadora e verificar se existe um plano de TV por assinatura e internet mais barato ou, temporariamente, cancelar o pacote e ficar com os serviços de streaming que são mais baratos.

Além disso, procure cortar pequenos gastos que na ponta do lápis somam uma boa grana, como as tarifas bancárias. A resolução 3.919/10 do Banco Central prevê um pacote de serviços essenciais que os bancos são obrigados a oferecer aos clientes. Saiba mais clicando aqui.

Fotos: AdobeStock

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Carol Nogueira: Repórter do Finanças Femininas, fã de David Bowie e John Coltrane. Passa o tempo livre pesquisando textos da Sylvia Plath e assistindo séries na Netflix. Fale comigo! :) <a href="mailto:carolnogueira@financasfemininas.com.br">carolnogueira@financasfemininas.com.br </a>
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