Cotas para mulheres podem reduzir desigualdade de gênero no mercado de trabalho

17 de janeiro de 2019 - Por

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“Ainda há dificuldade, enquanto sociedade, em discutir e combater a desigualdade de gênero de forma voluntária. Por isso, falar sobre cotas é um tema sempre delicado.” A frase é de Luana Marley, assessora de carreira da Catho, e Daniela Giugliano, gerente de Produtos da Catho – ambas membras do grupo de mulheres da empresa de recrutamento.

Apesar da objeção de alguns segmentos da sociedade, as cotas são tidas como uma das saídas mais efetivas e rápidas para corrigir distorções sociais, e isso vale dentro do mercado de trabalho, vestibulares e outras situações.

Por isso, tramitam dois Projetos de Lei: o PL 112/2010, aprovado no Senado, e o PL 7179/2017, agora para aprovação na Câmara dos Deputados. Em comum, eles definem um percentual mínimo de participação de mulheres nos conselhos de administração das empresas públicas e sociedades de economia mista.

Maria Fernanda Teixeira vem trabalhado pessoalmente na aprovação destes projetos. Ela é líder do Comitê 80 em 8, do Grupo Mulheres do Brasil – que reúne mulheres em torno de questões de gênero, educação e afins. O comitê que Teixeira lidera discute, especificamente, a valorização da mulher executiva.

“Sou a favor de cotas para cargos de liderança em geral, mas como isso é muito amplo, seria mais difícil e levaria mais tempo. Por isso, estamos focando em cargos de conselho”, diz.

Teixeira defende que, com mais mulheres nos conselhos, elas mesmas provocariam uma mudança de cima para baixo. “Isso aceleraria, sim, o número de mulheres em cargos que chamamos de CXO, como CEO, CMO (Chief Marketing Officer, ou diretora de marketing), CFO (Chief Financial Officer, ou diretora financeira) etc.”

De acordo com levantamento da consultoria SpencerStuart, as mulheres são apenas 10% entre titulares e suplentes de conselhos administrativos no Brasil – dado de agosto de 2018. Segundo Teixeira, o número cairia drasticamente ao excluir herdeiras. Um outro estudo, este do LinkedIn, apontou que ocupamos apenas 25% dos cargos mais altos.

Por que precisamos das cotas para mulheres em cargo de liderança?

“As mulheres têm uma contribuição para a atividade econômica extremamente relevante, mas ainda estão presas a transitar apenas em alguns setores e funções menos estratégicas”, pontuam Marley e Giugliano. É o chamado “teto de vidro” – uma espécie de limite velado para a ascensão de mulheres dentro das empresas.

Este fenômeno é a expressão de diversas causas que, juntas, dificultam a chegada de mulheres ao topo das empresas. Um deles é a dupla jornada feminina, já que o cuidado com os filhos e a casa ainda recai sobre os nossos ombros.

Há, ainda, fatores culturais, que impedem que mulheres levantem suas vozes dentro das empresas e reivindiquem melhores posições. “Aceitar o status quo desta forma, seja por timidez ou medo de perder o trabalho, faz com que muitas mulheres deixem de vocalizar e aceitem a posição que estão. Somos tão preparadas quanto os homens, ou até mais, como mostram alguns estudos”, afirma Teixeira.

“Temos também uma representação coletiva das mulheres como pessoas mais frágeis, com dificuldades de tomar decisões e de lidar com pressão. Esses estereótipos não contribuem nos processos de seleção e promoção de mulheres a cargos de liderança”, completam Marley e Giugliano.

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Benefícios de ter mais mulheres nos conselhos administrativos

Existem diversos estudos que mostram que ter mais mulheres em cargos de liderança traria mudanças extremamente positivas, tanto nas empresas quanto no cenário econômico mundial.

Um deles, da consultoria McKinsey, aponta que Empresas com mulheres na liderança lucram 21% a mais. Outro, do Banco da Inglaterra, afirmou que bancos com mais mulheres na diretoria são mais rentáveis. A consultoria McKinsey também mostrou, por meio de pesquisa, que o fim da desigualdade de gêneros daria força à economia mundial – seriam injetados US$ 28 trilhões a mais no produto interno global em um cenário totalmente igualitário, em que mulheres teriam acesso às mesmas oportunidades e remunerações que os homens.

“Aqui no Brasil, quase 80% das decisões de compra são feitas por mulheres. Então, por que não temos mais mulheres no topo? Com mulheres no topo, as empresas poderão entender melhor a cabeça dessa mulher que decide”, justifica Teixeira.

Enquanto as cotas não entram em vigor, como levar mais mulheres à liderança?

“É só querer”, resume Teixeira, que já ocupou até a presidência de empresas. “Quando eu chegava lá, uma das primeiras regras que implantava é de que, a partir daquele momento, metade dos candidatos para qualquer vaga de gerência ou acima teriam que ser mulheres. Isso valia tanto para novas contratações quanto promoções”, conta.

Essa política já se mostrou muito efetiva em um levantamento realizado pela Escola de Graduação em Negócios da Stanford – veja aqui. “A partir daí, contratamos quem tiver mais competência. Mas, se houver um homem e uma mulher com competências parecidas, priorizamos a mulher”, diz Teixeira.

Para acompanhar essas políticas, ela defende que sejam estabelecidos alguns indicadores, chamados de KPIs. “Isso deve ser incluído nas metas da empresa, junto ao lucro e afins. Para incentivar, bonifica-se os gestores que conseguirem cumprir essa meta de diversidade”, conclui.

Fotos: AdobeStock

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Ana Paula de Araujo
Ana Paula de Araujo
Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
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