Desigualdade de gênero: como os vieses inconscientes prejudicam a carreira de mulheres

3 de abril de 2019 - Por

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Você sabe o que são vieses inconscientes? A desigualdade de gênero está tão enraizada em nossa cultura que, por vezes, é difícil detectá-la – e isso também se reflete no mercado de trabalho. Aqui entra a pergunta que fizemos no começo do parágrafo.

“Os vieses inconscientes estão relacionados ao conjunto de estereótipos armazenamos ao longo da vida a partir de nossas vivências, como memórias de nossa infância – agradáveis ou não –, percepções que adquirimos a partir de pessoas de nosso ciclo de convivência e até mesmo informações que obtemos a partir da mídia”, resume Flora Alves, CLO da SG Aprendizagem Corporativa.

Como o nome indica, eles são inconscientes. É como se cada vivência ficasse armazenada em um grande banco de dados dentro da nossa mente, formando um sistema de crenças. A cada nova interação, nosso cérebro recorre a essas informações para julgar a situação que está sendo vivida naquele momento.

“O problema é que, sendo o nosso cérebro uma máquina extremamente produtiva, este processo se dá numa fração de segundos, o que nos impede de perceber que estamos sendo tendenciosos – ou seja, que estamos julgando de acordo com um viés pessoal que utilizamos para formar uma visão sobre tudo o que nos cerca”, afirma.

Aqui começam os entraves que dificultam, e muito, a vida das mulheres ao longo de suas carreiras.

Como vieses inconscientes aprofundam as desigualdade de gênero no mercado de trabalho?

Geralmente, o momento da contratação é o primeiro contato do recrutador com o candidato. Nessa situação, em vez de tirar conclusões racionais, o cérebro simplesmente julga de maneira intuitiva, a partir de estereótipos armazenados.

“Assim, esse poderoso sistema de crenças fica gravado no inconsciente e muitos dos comportamentos que as pessoas têm nas corporações são guiados por aquilo que acreditam ser verdade”, explica Cris Kerr, CEO da CKZ Diversidade, agência que presta consultoria em diversidade para empresas.

Por exemplo, se o recrutador tiver em seu “banco de dados” o estereótipo de que a vaga de emprego em questão não é compatível com o gênero da pessoa que ele está entrevistando, o candidato – no geral, candidata – acabará prejudicado. Pode acontecer especialmente em vagas consideradas “masculinas” ou em cargos executivos.

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Existem diversos tipos de vieses. O de afinidade, por exemplo, aponta nossa tendência de avaliar positivamente as pessoas que são parecidas conosco ou têm os mesmos gostos. Assim, um gestor homem pode preferir contratar outros homens.

“Uma das consequências desse viés pode ser um time onde todos são a imagem e semelhança do gestor. Uma equipe com essa característica, além de perder a riqueza da diversidade, tende a evitar conflitos e concordar com tudo o que pode ser desastroso para os resultados e competitividade do negócio”, diz Alves.

Igualdade de gênero: como enfrentar os vieses inconscientes ?

A presença desses vieses é mais comum do que podemos imaginar e não se restringe a um gênero específico. “Eu conheço mulheres que já confessaram ter se surpreendido com seus próprios pensamentos na hora de fazer uma contratação. Algumas revelam que, ao entrevistar mulheres e saber que tinham filhos pequenos, se pegaram pensando que isso seria um problema uma vez que poderia acarretar em ausências necessárias para cuidar da saúde da criança”, comenta Alves.

Por isso, combater vieses inconscientes é uma tarefa de todos – e a primeira atitude é garantir a existência de processos seletivos que preservam a igualdade de gêneros. “Verifique se eles podem estar servindo como ponto de entrada para o viés inconsciente de quem conduz a entrevista”, aconselha Alves.

Também é preciso estar atenta à nossa comunicação, especialmente se somos referência profissional em nosso ambiente de trabalho. “Mesmo quando não percebemos, a nossa comunicação pode ser responsável por alimentar estereótipos inconscientes naqueles que trabalham conosco.”

Aproveite e fale sobre estereótipos com sua equipe sempre que surgir a oportunidade. Essa abordagem é defendida por Lee Mun Wah, especialista na facilitação de workshops que abordam estereótipos. Ela sugere que a conversa transparente sobre o tema é a maneira mais saudável e eficaz de evitar a presença dos vieses inconscientes não só no ambiente de trabalho, mas também na vida como um todo.

Como se proteger de vieses inconscientes em entrevistas de emprego e na sua carreira?

Alves dá a dica: o primeiro passo é ter consciência de que estes vieses existem e, a partir disso, conduzir seu jeito de se comunicar.

“Quando a mulher entrevistada perceber a presença de um viés inconsciente na pessoa que conduz a entrevista, ela deve elaborar perguntas que levem o seu interlocutor a pensar sobre o que está dizendo, pois isso dá ao outro a chance de se perceber e recalcular o rumo de sua entrevista”, indica.

Um exemplo é repetir o que o recrutador disse, com um simples “Você poderia me explicar melhor o que quis dizer com…?” – e novamente repetir o que foi dito. Como estamos falando de vieses inconscientes, é provável que seu interlocutor sequer tenha percebido o que está fazendo.

“Assumir que todos nós possuímos tais estereótipos armazenados em nossa memória – e que eles podem prejudicar o nosso julgamento – é o primeiro passo para lidarmos melhor com este fato e construirmos um mundo melhor”, finaliza Alves.

Fotos: AdobeStock

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Ana Paula de Araujo
Ana Paula de Araujo
Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
Fale comigo! :) anapaula@financasfemininas.com.br

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