Desobediência: as dores que a mulher enfrenta para ser empoderada e amada ao mesmo tempo

Desobediência: as dores que a mulher enfrenta para ser empoderada e amada ao mesmo tempo

A escolha de Londres como palco principal do filme Desobediência, do diretor chileno Sebastián Lelio, não poderia ser mais assertiva para trazer a atmosfera que permeia o trio de protagonistas. O clima frio, cinzento e nada acolhedor é o que recebe Ronit (Rachel Weisz) em seu breve retorno de Nova York para Londres, em razão do falecimento de seu pai (Anton Lesser), um rabino líder de uma comunidade judaica ultraortodoxa.

A surpresa da comunidade com sua chegada repentina é encoberta por uma desconfortável polidez da parte de todos, principalmente porque quem assiste consegue identificar claramente quem deseja condenar Ronit com as palavras, e quem deseja abraçá-la fortemente para aplacar a saudade, mas precisa se conter. É nesse contexto que um triângulo confuso se mostra aos poucos. A cumplicidade na troca de olhares entre ela e Esti (Rachel McAdams) deixa evidente um romance interrompido em algum lugar do passado. Entre elas, está Dovid (Alessandro Nivola), um homem pelo qual ambas nutrem um grande afeto pelo laço de amizade criado desde a infância. Ronit não suporta viver de acordo com as rigorosas regras impostas na comunidade onde cresceu e resolve partir – e essa é a primeira ruptura. A segunda vem com o fardo que acaba pesando sobre as costas de Esti: a recomendação do rabino para que se case com o melhor amigo, Dovid.

Filme Desobediência: uma opinião

Desobediência não se trata apenas do ambiente desconfortável e melindroso que Ronit se encontra ao confrontar todos os costumes que um dia abandonou, mas também das possibilidades drenadas no campo emocional. Nesse clima inóspito, a direção do filme soube conduzir com maestria a sensação pesada de sufocamento em que parece estar o trio de protagonistas. É marcante, por exemplo, um momento em que Esti e Ronit se encontram sozinhas em uma sala aparentemente abafada, desorganizada e ainda repleta de objetos hospitalares usados nos últimos dias do pai de Ronit. Em meio ao estranhamento do não dito entre as duas, a pausa vem para uma música animada no rádio que logo leva as duas para algum lugar agradável na memória. Mas a música é abruptamente interrompida. Mesmo saudosas, é difícil para as duas até mesmo encontrar uma válvula de escape naquele local tão repleto de memórias.

A intensidade do relacionamento das duas é de uma urgência que ambas souberam trazer muito bem às personagens. É como se ambas tirassem o peso do mundo de suas costas por alguns instantes, mas o retorno para a realidade surge muito nitidamente no olhar cansado e triste das duas.

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O tempo todo percebe-se que os protagonistas sofrem entre aquilo que existe e o que poderia existir. Esti vive a mulher que teve um destino traçado por outras mãos, protagonizando uma história que claramente não gostaria de viver – e busca refúgio de seus desejos mergulhando profundamente na doutrina religiosa. Ronit, por sua vez, mesmo tendo escolhido um caminho de liberdade, ainda carrega dentro de si as angústias daquilo que foi impedida de viver. Ela parte, mas deixa um amor para trás. Ela não aceita ser submetida aos padrões religiosos, mas sofre profundamente com a forma como foi apagada da vida do pai.

Dovid luta para não deixar que a vida religiosa, comedida e disciplinada sofra qualquer tipo de fissura, mas aos poucos vê que ele mesmo também não está em paz com aquilo que construiu para si – e com a expectativa que a comunidade que tanto ama colocou em cima dele.

Em todo o contexto, percebe-se que a palavra desobediência vem muito mais como uma necessidade do que como uma transgressão. E é justamente neste ponto que o filme se torna tão tocante: o rompimento com as normas não vem sem consequências, assim como a insistência em manter o status quo surge como algo que beira o insuportável. A atmosfera opressora presente em todo o filme mostra com muita sensibilidade as nuances de se empoderar: um processo necessário, libertador, mas nem sempre livre da dor e de consequências que fogem do nosso controle.

Desobediência é muito mais do que uma história de amor proibido. É também sobre a luta que precisamos travar para sermos, ao mesmo tempo, independentes, compreendidas e amadas pelos que nos cercam.

Fotos: Reprodução/Bleecker Street Entertainment

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Karina Alves

Jornalista e editora de conteúdo do Finanças Femininas. Já trabalhou em jornais impressos, online, rádio e com produção. Tem fascínio pela junção entre economia e psicologia, procura explorar cada vez mais esse universo e busca usar esse aprendizado para ajudar as pessoas a levarem uma vida financeira mais saudável! Contato pelo karina@financasfemininas.com.br

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