Fake news: guia completo para não ser enganada

19 de outubro de 2018 - Por

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Pergunta rápida: você sabe identificar fake news assim que vê uma? Participar de grupos no WhatsApp tem sido um verdadeiro exercício ao olhar crítico e, se você não tomar cuidado, pode acabar caindo em algumas notícias falsas. Vídeos sobre a ameaça de uma “ditadura comunista”. Textões sobre um tal de “kit gay” – até mamadeiras eróticas entraram no enredo.

Se, lendo friamente, tudo isso parece um devaneio, essas e outras fake news ganharam tanta projeção que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) teve que intervir para determinar a remoção de vídeos publicados no Facebook e YouTube, nos quais o candidato à presidência Jair Bolsonaro (PSL) propaga informações falsas sobre uma suposta distribuição de um livro infantil com conteúdo de cunho sexual pelo Ministério da Educação – o “kit gay”.

Na última quinta-feira (18), uma reportagem da Folha de S. Paulo revelou um esquema no qual empresários estão bancando campanha contra o Partido dos Trabalhadores (PT) pelo WhatsApp e “preparam uma grande operação na semana anterior ao segundo turno.” De acordo com a apuração, são contratos de R$ 12 milhões – prática que viola a lei eleitoral por ser doação de campanha não declarada (caixa 2).

O que são fake news?

A expressão vem do inglês e sua tradução literal é “notícia falsa”.

Espalhar fake news sistematicamente fez parte da campanha de Donald Trump nos Estados Unidos e, recentemente, a tática chegou à corrida presidencial brasileira. Um estudo da USP, UFMG e da Agência Lupa apontou que apenas 4 das 50 imagens mais replicadas em WhatsApp entre os dias 16 de agosto e 7 de outubro são verdadeiras.

Por que fake news são um problema?

“Elas instalam o pânico, promovem a cultura de ódio, estimulam o preconceito contra minorias e acirram a violência. Também desvirtuam o debate público, conduzindo a opinião pública a acreditar em determinadas mentiras”, afirma Lucia Santa Cruz, Professora Adjunta da ESPM Rio.

Os efeitos das fake news podem trazer danos até ao tecido social e democrático – isto é, prejudicar nossa democracia.

“De um lado, as pessoas começam a ficar preocupadas e aprendem a detectar informações falsas, em uma postura cética. No entanto, do outro, se esse ceticismo for muito acentuado, ele pode se transformar em uma descrença generalizada. Assim, perde-se a confiança na imprensa tradicional. Muitos líderes autoritários na Turquia, Rússia e EUA estão tentando desacreditar a imprensa. Esse é o efeito mais preocupante e que pode trazer mais danos a longo prazo”, analisa o pesquisador Ivan Paganotti, professor da FIAM-FAAM, doutor pela ECA-USP e um dos criadores do curso online Vaza Falsiane – voltado para entender e combater fake news e desinformação.

Antropologicamente falando: o ser humano ama uma fofoca. Fake news fazem parte deste fenômeno.

Como fake news se espalham?

Um estudo do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, mostrou que fake news têm 70% mais chance de viralizar do que notícias reais. E não apenas isso: elas também chegavam a um público maior e tinham maior alcance temporal. O levantamento analisou 126 mil notícias que circularam no Twitter entre 2006 e 2017.

Por que isso acontece? Porque nosso cérebro ama fake news.

De acordo com Paganotti, existem diversas hipóteses. Uma delas, confirmada pelos próprios pesquisadores do MIT por meio de dados e números, indica que notícias falsas contêm conteúdo que apela para emoções, como raiva, tristeza, fúria e medo. Muitas vezes, essas notícias trazem palavras ligadas a sentimentos fortes, como “ameaça”, em vez do vocabulário mais neutro, que é comum no jornalismo.

“Isso provoca mais reações. Diante de uma informação forte e um texto que apela para o emocional, tendemos a reagir – não só clicar e ler, como também repassar e curtir, assumindo o papel de propagador desses conteúdos”, diz Paganotti.

O quê, KIT GAY???

Ele explica que, no apelo sensacionalista, o autor do texto expõe sua relação subjetiva, ou seja, o que ele sente – se ele está triste ou com medo, por exemplo –, levando o leitor a assumir essa relação.

“Isso contribui para que elas compartilhem o conteúdo antes de verificar sua veracidade, na intenção de ‘alertar o maior número de pessoas’, por exemplo”, comenta Marina Iemini Atoji, gerente-executiva da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

“Eu disse que fulano é corrupto!”

Paganotti levanta outras duas hipóteses: uma delas é o fato de as fake news não terem limites, já que o jornalismo é limitado pela realidade, permite que os criadores das notícias falsas ignorem a complexidade da realidade e crie conteúdos propositalmente exagerados.

A outra tem muito a ver com nosso desejo de sempre provarmos que estamos certos. “É o viés de confirmação, ou seja, a pessoa tanto é atraída por conteúdos que reforçam suas crenças e valores quanto pesquisa por assuntos que vão confirmar aquilo em que já acredita. Este aspecto psicológico tornam as fake news ainda mais aceitáveis, pois elas se alinham com uma visão ou um desejo prévios de quem a consome”, explana Santa Cruz.

Sim, as fake news são fabricadas para se encaixarem exatamente nos nossos preconceitos, crenças prévias e do que esperamos da realidade. Quanto àquilo que não gostamos, nosso cérebro apenas descarta.

“Em um quadro de opiniões extremas como o atual, pessoas tendem a difundir os conteúdos que confirmam suas visões de mundo. E, ao encontrar eco em outras pessoas, sentem-se acolhidas, recompensadas. Novamente, a emoção atravessa a informação”, completa Atoji.

Sem citar o fato de que as fake news são produzidas para simular uma notícia verdadeira, simulando mesmo. “Ou seja, são produzidas de modo a parecerem com notícias de fato. Numa primeira olhada, elas parecem ser conteúdo jornalístico – isto é, produzidas segundo critérios de objetividade, com checagem das informações, personagens reais e declarações que foram efetivamente feitas. Por isso, elas geram credibilidade”, diz Santa Cruz.

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Seja essa pessoa: a que confirma uma notícia antes de repassar.

Como identificar fake news?

Para quem tem costume de ler notícias em jornais e portais, descobrir que uma notícia é falsa não dá trabalho. Algumas são recheadas de montagens pouco sofisticadas, vídeos nitidamente manipulados, erros gramaticais e texto com pouco nexo. Porém, para saber, você precisará clicar no link que foi enviado pelo “zap” ou, pelo menos, observar com um pouco de atenção antes de encaminhar a mensagem.

Sim, sabemos que, dependendo do seu plano de celular, clicar em todas as notícias pode ser complicado. Por isso, vale ficar atenta a alguns sinais:

  • O texto tem erros de português?
  • Ele é confuso ou claro?
  • Ele mostra quais são as fontes da informação, ou seja, mostra quem contou aquilo?
  • Existe alguma palavra como “Atenção!”, “Importante, repassem!”, “Chocante!” e similares?
  • O texto está cheio de emojis e símbolos?
  • O texto está assinado por algum jornalista?
  • Você sabe quem produziu essa matéria?
  • Você sabe quem tirou essa foto ou não há nenhuma indicação da autoria dela?
  • Você lembra de já ter visto essa informação (ou algo parecido) em algum momento do passado?
  • A notícia tem data?
  • O título da matéria condiz com o que está escrito ao longo do texto?

“Sempre que possível, faça uma busca na internet antes de repassar um conteúdo ou se preocupar. No geral, algum meio de comunicação profissional já publicou um desmentido sobre o assunto”, orienta Atoji.

Se persistir a dúvida, vale a pena conhecer as agências de checagem – Comprova, Aos Fatos, Agência Lupa, Truco (Agência Pública), Fato ou Fake, Boatos.org e E-farsas são algumas delas.

Como você pode evitar a disseminação de fake news?

Simples: segurando o dedinho de “compartilhar” ou “encaminhar”. Desconfie, confirme e apenas repasse se você tiver certeza de que se trata de uma notícia verdadeira.

“Se o conteúdo recebido tiver sido repassado por alguém próximo, avise a pessoa. Muitas vezes ela nem percebeu que era fake news. Uma vez que o público deixa de aceitar conteúdo enganoso, sua disseminação enfraquece”, finaliza Atoji.

Na dúvida, duvide.

Fotos: Fotolia e Tenor

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Ana Paula de Araujo
Ana Paula de Araujo
Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
Fale comigo! :) anapaula@financasfemininas.com.br

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