Filme Baronesa: uma janela para a periferia pelo olhar de duas mulheres

1 de setembro de 2018 - Por

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Não raro os registros de boletins de ocorrência de crimes como homicídio em regiões periféricas se limitam a descrever as motivações como “acerto de contas do tráfico de drogas”. Em uma sociedade acostumada a encarar a periferia pela lente rasa do estereótipo e enxergar a tecelagem da influência da criminalidade em populações carentes somente pela análise de dados estatísticos, Baronesa vem como uma obra necessária para o despertar da empatia.

Primeiro filme da cineasta mineira Juliana Antunes, a narrativa se constrói com base no cotidiano de Andreia e Leidiane, duas vizinhas amigas, moradoras da Vila Mariquinhas, região Norte de Belo Horizonte. O filme se passa em um momento crítico – a vila passa por uma guerra entre traficantes. É nesse contexto que as duas dividem suas angústias e preocupações com o futuro. A mescla de ficção e documentário nos leva a uma imersão sem precedentes a uma realidade crua, em uma paradoxal mistura de acidez com delicadeza.

O último aspecto, é justo dizer, muito por mérito da sutileza na captação de imagens, de detalhes capazes de trazer a alma das personagens à tona. Eu poderia dizer que Baronesa é motivo de orgulho para o empoderamento feminino – e, de fato, é -, mas a urgência desse filme vai além desse aspecto.

Adentrar o universo da periferia pela ótica de duas mulheres é o primeiro passo da desconstrução. Em narrativas sobre a periferia, é comum encontrar o homem representado pela figura do malandro com o coração endurecido, que vive na boemia, mas evita se apaixonar porque está com a cabeça focada em não perder a vida em meio às armadilhas do tráfico. A mulher, por sua vez, cai na objetificação da namorada/esposa/mãe que sofre em função de algum homem envolvido na engendragem do tráfico.

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Andreia subverte essa lógica. É ela a mulher endurecida pela vida, que se precavê, que dorme com um olho aberto e o outro fechado para não se envolver em confusão. É ela quem tem a cabeça fria para deixar o emocional de lado e traçar seus planos de sobrevivência. Ironicamente, é ela também o ombro amigo do malandro que opta por se envolver com a guerra, mas que é sensível e não tem vergonha de mostrar seus sentimentos.

É ela também a conselheira forte que divide as angústias com Leidiane: mãe de cinco filhos pequenos, todos fruto de uma união com um homem que não aparece nas lentes. Está preso. É com Andreia, na linguagem e no tom da periferia, que Leidiane aprende sobre educação sexual. É com a ajuda dela que tenta orientar seus filhos sobre a mesma temática.

Nos caminhos tortuosos de viver em condições de precariedade e convivência diária com a criminalidade, vem do olhar feminino das duas a apresentação da periferia de uma nova forma. O filme não tem roteiro desenhado para propositalmente despertar emoções fortes em quem assiste. O roteiro é a vida real. As emoções despertadas em nós surgem diante da oportunidade de ter uma janela tão fidedigna para a realidade de uma periferia.

Aqui, o espectador precisa de uma postura humilde para absorver tudo que esse filme tem a ensinar. Tudo que discutimos e problematizamos em uma mesa de bar entre amigos pode cair por terra ou parecer completamente utópico diante da observação da vivência daquelas duas mulheres. Do lado de cá, somos a teoria. Do lado de lá, elas são a prática.

Dificuldades de mergulhar no universo do filme

Em entrevista concedida ao Canal Curta!, Juliana Antunes falou sobre as dificuldades enfrentadas para concretização do filme. Entre as exigências das personagens, estava a condição de se mudar para o local onde o filme foi gravado. Inicialmente, havia uma desconfiança de que ela pudesse ser uma policial infiltrada – era preciso conquistar a confiança dos moradores.

Chama atenção a naturalidade com a qual as personagens se comportam diante da câmera. Ali, a lente parece ser apenas uma intrusa, uma vizinha que fica calada, apenas bisbilhotando o que acontece ao seu redor. E nesse contexto, a cineasta revela uma admirável habilidade de captar a essência das personagens pelos detalhes. Olhares perdidos, a sensibilidade de um banho improvisado em uma caixa d’água entre amigos flertantes, o olhar de incompreensão de uma criança sentada na porta de casa enquanto escuta o irmão mais velho levando uma bronca por um fato grave. A fita preta amarrada em postes sempre que alguém morre.

Baronesa não é apenas inovador na maneira de olhar e apresentar a periferia. É uma lição de humanidade, de luta, de reflexão sobre nossas realidades e o modo de olhar a realidade do outro.

Fotos: Reprodução/Baronesa

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