Incel: quando homens virtuais se juntam para atacar mulheres no mundo real

8 de maio de 2018 - Por

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Você já ouviu falar de um grupo denominado ‘Incel’? São homens que, por trás de seus computadores, disseminam discursos de ódio e violência contra mulheres, como uma forma de descontar suas frustrações sexuais. A situação piorou quando esse comportamento agressivo extrapolou o mundo virtual e um participante do fórum foi apontado como o responsável pelo atentado em Toronto, no Canadá.

No dia 23 de abril, em uma via movimentada da cidade, o motorista de uma van atropelou dezenas de pedestres. Na tragédia, 10 morreram e 14 ficaram feridos, de acordo com o jornal canadense The Globe and Mail. O suspeito do atentado, Alek Minassian, 25 anos, tem nacionalidade canadense e foi preso próximo ao local do crime. As investigações da polícia local apontaram que as motivações do atentado têm cunho misógino — ou seja, repulsa, desprezo e ódio contra as mulheres.

Minutos antes do ataque, Minassian publicou em sua conta no Facebook uma homenagem a Elliot Rodger, autor do atentado de Isla Vista, na Califórnia, em 2014. Na postagem, ele afirmou que a rebelião Incel já havia começado. A polícia de Toronto confirmou a autenticidade da publicação e o Facebook retirou a conta de Minassian do ar.

O termo ‘Incel’ é a abreviação de involuntariamente celibatário. Segundo definição do site americano Vox, trata-se de um grupo virtual de homens que são incapazes de convencer mulheres a terem relações sexuais. Para eles, o fracasso sexual é devido à crueldade das mulheres, que sentem atração apenas por homens ‘machos alfa’ e hipermusculosos. Esse ‘comportamento feminino’ seria uma injustiça com os homens que não se encaixam nesse padrão — os ‘machos beta’.

Pouco antes do massacre de 2014, Rodger havia publicado um vídeo no Youtube anunciando que teria sua “vingança contra a humanidade”. A motivação alegada pelo estudante era que “as garotas nunca foram atraídas por ele” e que, por isso, iria “punir” todas elas. Na ocasião, ele esfaqueou até a morte três pessoas em seu apartamento, saiu atirando pelas ruas, fazendo outras três vítimas, e se matou logo em seguida.

“Tenho 22 anos e ainda sou virgem. Nunca nem beijei uma garota. Tenho frequentado a faculdade por dois anos e meio, mais do que isso até, e ainda sou virgem. Tem sido muito torturante”, disse Rodger, no vídeo. “Não sei o que vocês não veem em mim. Eu sou o cara perfeito e, ainda assim, vocês se jogam nesses homens detestáveis em vez de mim, o cavalheiro supremo” afirmou, dirigindo-se às garotas que o rejeitaram.

Misoginia: ódio puro ou transtorno de personalidade?

Essa violência gratuita contra as mulheres pode ter um embasamento em transtornos de personalidade adquiridos muito antes desses homens entrarem para os fóruns de Incel. Problemas sociais e familiares influenciam diretamente no comportamento quando adulto. No caso de Rodger, ele teria sofrido bullying durante a infância após ser diagnosticado com síndrome de Asperger.

“Transtornos de personalidade podem ser desenvolvidos ainda na infância e são identificados no perfil dos agressores. Há uma necessidade de culpar alguém por suas frustrações pessoais e sentimentais, direcionando a não aceitação de si próprio em ódio e agressividade contra as mulheres”, comenta Lidiane Silva, psicóloga clínica e educacional.

Segundo a especialista, existem várias explicações no âmbito da psicologia para analisar o comportamento ou conduta do homem que pratica esse tipo de violência e cria concepções radicais ao sexo oposto. “Por sentir-se inseguro, sozinho e não manter um relacionamento amoroso, a ideologia praticada no Incel torna-se uma fuga e alívio por não atingir a sua satisfação no âmbito sentimental e sexual podendo, assim, potencializar o transtorno de personalidade”, acrescenta.

Para o psicólogo Roberto Debski, o comportamento misógino e a percepção que estes homens têm de que são merecedores de atenção feminina tem como raiz traumas de infância e um comportamento infantil e imaturo, além de violento, o que neste caso revela também traços de psicopatia. “Estes adultos que se imaginam somente com direitos, quando não conseguem o que querem, numa percepção infantil, culpam os outros, se vitimizam, em vez de assumir sua parte de responsabilidade em seu insucesso.”

Perigos na Internet: eles se escondem atrás das telas

A maior dificuldade está em identificar esses usuários, já que eles ocultam suas verdadeiras identidades através de apelidos falsos na Internet, e conseguem criar grupos de pessoas com ideias semelhantes e propagam um discurso de ódio contra as mulheres.

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Geralmente, nesses fóruns de ódio não existe uma moderação — ou essa é alinhada para o fomento a esse discurso. Por conta disso, não ocorre bloqueio ao discurso de ódio. Um tópico do maior fórum Incel do Reddit, que foi extinto pela rede social em 2017, defendia que o estupro de mulheres deveria ser legal para eles. Mas como identificar os mais de 40 mil membros participantes desse grupo?

“Em sites gerais, cujo comentário de ódio aparece, a identificação é de um pseudônimo, uma covardia típica de quem ataca minorias. Ir atrás de IPs (Endereço de Protocolo da Internet) é complicado para quem administra fóruns ou páginas de comentários”, explica Vinícius Tex, analista de redes e tecnologia e fundador do Instituto Brasileiro de Blockchain e Moedas Virtuais.

Para ele, é fundamental reportar esse tipo de conteúdo às autoridades — Polícia Federal, polícias civis e Ministério Público. “Acabar com os fóruns não me parece possível. O que deve haver é o monitoramento constante, o endurecimento da legislação online, mais diálogo entre as diferentes leis de cada país e mais punição. A liberdade de expressão é inquestionável. Mas a liberdade de expressão não pode ser uma pretensa desculpa para o desrespeito, o ódio e o planejamento efetivo de ações de violência e ódio.”

“Na era digital, a influência pode cegar o indivíduo e transformá-lo após o acesso a certos vídeos, participar de grupos e consumir alguns tipos de conteúdos. O poder da internet não pode ser mensurado, mas a capacidade do ser humano em propagar maus conceitos e hábitos já é uma prática de domínio público em nossa sociedade. Por isso que o monitoramento de rede é primordial para a segurança de todos, da família e da sociedade”, complementa Thiago Valadares, especialista em comportamento digital e diretor da SEVEN Grupo Digital.

Assim como no mundo real, toda agressão virtual é tipificada como crime no código penal. “Quem se sentir agredido de alguma forma poderá apresentar sua queixa à autoridade policial e sem prejuízo poderá pedir reparação pelos danos sofridos na esfera cível”, assegura José Ricardo Ramalho, advogado de Direito Civil.

Basta um computador para se estar perto do perigo

Para ter acesso a esses tipos de fóruns basta ter um computador com acesso à Internet. Mais um motivo para dificultar o monitoramento dos usuários. Nesse sentido, Lidiane alerta para a importância da família e amigos próximos estarem sempre atentos e observarem mudanças comportamentais, como o isolamento social, impulsividade, frieza, dificuldade em aceitar opiniões alheias ou irritabilidade extrema ao serem contrariados.

“Pode ser que esses homens não consigam disfarçar sua inquietação quando estão próximos a uma mulher. Muitos perdem dias de sono, criam um ciclo vicioso e de dependência emocional dos integrantes radicalistas pertencentes à mesma rede de ataque”, ressalta.

De acordo com Tex, esse tipo de comunidade virtual existe tanto na Deep Web quanto na Internet tradicional. Por mais que existam muitos mitos em torno da primeira, os conteúdos de ódio hospedados na internet convencional são os mais preocupantes, pois são acessíveis a qualquer pessoa ao redor do mundo. “Adolescentes e adultos mais suscetíveis a discursos e práticas dessa natureza só precisam fazer uma ou duas buscas simples para chegarem a esses fóruns. Em um mundo cujos valores da educação e da ética estão perdendo terreno para horas de televisão e de navegação, isso é muito perigoso”, conclui.

Fotos: Fotolia

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Gabriella Bertoni
Gabriella Bertoni
Repórter, produz matérias para o Finanças Femininas. Apaixonada por livros e por contar histórias, é recém-chegada em São Paulo e ainda está completamente perdida, mas adorando a cidade.
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