Marielle Franco, presente: a violência não vai nos calar

19 de março de 2018 - Por

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*Mônica Costa

Na noite do dia 14 de março, no centro do Rio de Janeiro, a socióloga Marielle Franco, de 37 anos, foi executada com nove tiros, quatro deles na cabeça. E por que assassinaram esta mulher? Porque ela ousou se levantar contra um sistema, quando decidiu traçar um projeto de vida que a levou ser a segunda mulher mais votada ao cargo de vereadora em todo o País.

Negra, ativista política desde sua adolescência, Marielle era “cria” da favela, ingressou em cursinhos populares de pré–vestibular e, por meio do Prouni, acessou os bancos da universidade onde cursou Ciências Sociais na PUC-Rio e mestrado em Administração Pública na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Defensora dos direitos humanos, Marielle conhecia bem os dados da ONU, os quais apontam o Brasil como o quinto País mais violento do mundo para mulheres. As negras, como ela, eu e você são vítimas em 65% dos casos. Ou seja: a cada 12 mulheres agredidas – física ou psicologicamente – todos os dias, oito delas, são negras.

Violência contra a mulher

“Estamos nos piores índices de todos os indicadores”, lamenta a psicóloga e ativista social Mafoane Odara, coordenadora de Projetos de Enfrentamento da Violência contra Mulheres, no Instituto Avon. Segundo Mafoane, três fatores são importantes para reduzir estes índices de violência: além da garantia de uma vida com respeito aos seus direitos e escolhas (ou seja, sem violência), a mulher também precisa conquistar sua autonomia econômica e traçar projetos de vida.

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Segundo o Sebrae, a força empreendedora feminina é a maioria em quatro das cinco regiões brasileiras. Somos mais escolarizadas e investimos mais em qualificação, mas o peso da violência tenta frear os nossos passos. Dados compilados pelo Instituto Avon mostram que os custos sociais e econômicos da violência contra as mulheres são enormes e têm efeito cascata em toda a sociedade.

Os prejuízos – que podem ser passageiros ou não – vão desde a dificuldade de cuidar de si própria, dos filhos e de outros membros da família, queda da produtividade no trabalho, perda de salários, isolamento, falta de participação nas atividades regulares, maior instabilidade no mercado de trabalho, até elevados níveis de estresse e problemas de saúde (física e mental ).

Estudo do Instituto Maria da Penha, estimou que violência doméstica e familiar gerou, no Brasil, um absenteísmo, equivalente a R$ 975 milhões de massa salarial perdida em 2016. “Se não entendermos que a autonomia econômica está entre as ferramentas mais importantes e necessárias para o desenvolvimento da mulher, não conseguiremos fazê-la sair deste ciclo de violência”, segue Mafoane, que coordena ações de empoderamento junto a uma rede formada por mais de 1 milhão e meio de revendedoras Avon e uma parceria com a Rede Mulher Empreendedora, onde está mapeando o perfil deste grupo para o desenvolvimento de ações que potencializem seus talentos. “Não dá para pensar no desenvolvimento da família sem que a mulher tenha um projeto de vida, e nossa responsabilidade é ajudar essa mulher a ir ainda mais longe”.

Marielle, que foi mãe aos 18 anos, conhecia esta realidade e se agarrou a todas as oportunidades para mudar este quadro e deixar um legado para sua filha Luyara e para todas nós. Sua trajetória, sua postura altiva – herança de nossos ancestrais, reis e rainhas – e sua voz, incomodaram um grupo que acreditou na violência como forma de fazê-la parar. Mas somos milhares de “Marielles” e seguiremos traçando o nosso destino e buscando melhores colocações na sociedade e na vida. “Nossos passos vêm de longe”, disse a vereadora durante a roda de conversa Mulheres Negras Movendo Estruturas, de que participou pouco antes de ser morta. É isso, somos frutos de uma história de luta, e não serão nove tiros que nos farão parar.

*Mônica Costa é jornalista, mãe de um garoto de 14 e uma menina de 6 anos. Estudiosa de educação financeira e curiosa sobre a condição da mulher negra e o capital.

Fotos: Reprodução/Mídia Ninja

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