Maternidade pode ser a causa da desigualdade salarial entre homens e mulheres, diz estudo

Maternidade pode ser a causa da desigualdade salarial entre homens e mulheres, diz estudo

Todas sabemos que mulheres ganham menos do que os homens. A desigualdade salarial não é exclusividade de países em desenvolvimento: nos Estados Unidos, as norte-americanas ganham apenas 79% da renda do gênero masculino. Já aqui no Brasil, segundo o IBGE, ganhamos apenas 75% do que eles recebem, mesmo estando em maior número entre as pessoas com ensino superior.

Essa desigualdade entre gêneros é tamanha que levanta uma série de debates. Afinal, qual é o motivo para essa discrepância? Há quem diga que é culpa da discriminação de gêneros – ou seja, o sistema econômico em geral não acredita que mulheres podem ter o mesmo desempenho de um homem. Outros argumentam que nós escolhemos áreas que pagam menos.

No entanto, um novo estudo da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, chegou a outra conclusão: a diferença salarial entre homens e mulheres é, basicamente, uma penalização por nós termos filhos.

Culpadas pela maternidade

Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores usaram dados de um dos países com maior suporte social: a Dinamarca. Lá, eles oferecem aos novos pais um ano de bolsa para ajudar na criação.

Eles encontraram uma queda brusca na renda de mulheres depois do nascimento do primeiro filho – sendo que, para homens na mesma situação, não há nenhum impacto. O efeito acumulativo é assustador. As mulheres acabam recebendo 20% a menos do que eles ao longo da carreira.

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Fonte: “Crianças e desigualdade de gênero: Evidências da Dinamarca”, National Bureau of Economic Research. Gráfico: Vox

No país, mulheres sem filhos têm renda similar aos homens, enquanto as mães sofrem com a desigualdade salarial. O gráfico a seguir compara a trajetória da carreira de uma mãe com a daquelas que não tiveram filhos.

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Fonte: “Crianças e desigualdade de gênero: Evidências da Dinamarca”, National Bureau of Economic Research. Gráfico: Vox

O estudo estima que a gravidez seja culpada por 80% da diferença de salários na Dinamarca.

Este estudo foi feito com dados do país europeu, mas há levantamentos similares feitos nos Estados Unidos. Um deles, da Universidade de Harvard, aponta que a diferença salarial no país é maior entre mulheres na faixa dos 30 – época na qual, geralmente, se têm o primeiro filho.

Alguns culpados históricos pela diferença salarial entre gêneros, como a disparidade na formação e educação, estão sumindo. “A única coisa que não está mudando é o efeito de ter filhos. Isso é muito persistente e constante”, disse o economista Henrik Kleven, responsável pelo estudo da Universidade de Princeton, ao site Vox.

E os homens?

Kleven descobriu que, depois da gravidez, as novas mães acabam em trabalhos com menor carga horária e salários inferiores. Na Dinamarca, dez anos depois da primeira gravidez, mulheres têm 10% mais probabilidade de acabar em um cargo público do que um homem – no país europeu, estes trabalhos tipicamente oferecem horas de trabalho mais flexíveis e possibilidade de sair para levar a criança ao médico, mas também pagam menos.

Já a renda dos novos pais permanece intacta: a curva salarial de homens com ou sem filhos é praticamente igual ao longo das décadas seguintes.

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Fonte: “Crianças e desigualdade de gênero: Evidências da Dinamarca”, National Bureau of Economic Research. Gráfico: Vox

Segundo o economista, acredite se quiser, a política de flexibilidade da Dinamarca pode estar exacerbando a disparidade salarial entre gêneros no país. Na teoria, a política dinamarquesa permite que tanto pais quanto mães saiam do trabalho para cuidar dos filhos. Porém, na prática, são elas que cuidam disso na vasta maioria dos casos – eles cumprem essa função em apenas 10% dos casos, deixando para as mães o ônus de 90%, segundo o próprio governo dinamarquês.

É por isso que, para Kleven, essa flexibilidade não apenas não corrige a desigualdade entre gêneros como, ainda, pode aumentar a disparidade por tirar apenas a mulher de seus postos de trabalho, diminuindo seu potencial de renda. “Quando essa política é neutra [não é especificamente dividida entre o pai e mãe], não podemos esperar que faça algo notável pela desigualdade de gêneros.”

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Outros países escandinavos revisaram suas políticas parentais para dar conta do problema apontado pelo estudioso. A Islândia, por exemplo, reservou 13 semanas para pais deixarem o trabalho para cuidar dos filhos. Como resultado, mais de 90% dos homens com filhos aproveitam o benefício.

Por que as mães ainda são penalizadas?

A questão ainda não tem resposta mas, para o economista, há duas hipóteses possíveis que não necessariamente são excludentes. A primeira diz respeito ao ambiente, onde normas sociais dificultam a permanência das mães no mercado de trabalho. Elas podem sentir que não lhe são oferecidas certas oportunidades – como um trabalho que exija longas viagens ou carga horária extensa – por causa da percepção de que elas são as principais cuidadoras de uma criança.

Um levantamento citado por Kleven mostra que a maior parte dos adultos dinamarqueses e norte-americanos acreditam que mulheres com crianças pequenas não devem ter trabalhos em tempo integral.

A outra explicação seria biológica: mulheres poderiam ter uma tendência mais forte de preferir passar mais tempo em atividades relacionadas ao cuidado das crianças.

Independentemente desses apontamentos, as políticas públicas têm um papel muito importante – os governos têm a capacidade de moldar como os filhos devem ser criados ao mudar a estrutura da licença parental, por exemplo. Fora da Dinamarca, a maioria dos países escandinavos decidiram que é bom para a sociedade encorajar homens a tirarem licença depois do nascimento de seus filhos.

É uma decisão que cada país deve tomar: adotar políticas que tragam mais equidade para sua força de trabalho ou que colocam o peso da criação dos filhos majoritariamente nas costas das mulheres?

Fotos: Fotolia

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Ana Paula de Araujo

Ana Paula de Araujo

Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
Fale comigo! :) anapaula@financasfemininas.com.br

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