Mercado de trabalho: desigualdade de gênero no salário começa ainda na infância

22 de agosto de 2018 - Por

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Muitas mulheres sofrem com a desigualdade de gênero e ganham menos do que os homens no mercado de trabalho. Isso começa ainda na infância. Se você cresceu em uma casa junto com outros homens (pai ou irmãos), provavelmente já passou pela seguinte situação: fazer mais tarefas domésticas do que os meninos da casa, apenas por ser mulher. Ou pior, ter a responsabilidade da casa unicamente para você. Isso não é só impressão.

De acordo com um levantamento realizado por pesquisadores da Universidade de Maryland (EUA), meninos de 15 a 19 anos fazem cerca de meia hora de trabalho doméstico por dia, enquanto as meninas empenham 45 minutos diariamente. Mesmo que o tempo gasto com afazeres domésticos pelas meninas tenha diminuído ao longo dos anos, o período que os meninos dedicam às mesmas atividades não mudou significamente.

Segundo informações do The New York Times, para o levantamento as pesquisadoras Sandra Hofferth e Frances Goldscheider utilizaram dados de 6.358 estudantes do ensino médio de 15 a 19 anos, retirados da American Time Use Survey (algo como o IBGE do Brasil), durante os anos de 2003 a 2014. Foi analisado o trabalho doméstico, que incluía cozinhar, limpar, cuidar de animais de estimação, cuidar do quintal e manutenção de carros e residências.

“A diferença de tratamento nas tarefas entre meninos e meninas começa dentro de casa e os pais precisam estar atentos a isso. Ninguém deve ficar sobrecarregado ou ter uma remuneração menor em função do gênero. As tarefas precisam ser divididas na mesma proporção. Afinal, a família, que usufrui de tudo que um lar proporciona, pode ser composta por ambos os sexos. Não é justo que um ou outro fique com uma parte maior ou mais pesada. Isso faz parte do passado e é uma atitude totalmente machista”, comenta Dilza Taranto, Consultora de RH e Coach.

Desigualdade salarial no mercado de trabalho começa em casa

Essas atitudes, cultivadas ainda na infância, refletem diretamente na vida adulta da mulher, quando ela chega no mercado de trabalho. Isso porque os meninos não são ensinados a fazer um trabalho não remunerado, enquanto as garotas são condicionadas a ter mais responsabilidade sem retorno financeiro.

“O lado negativo dessa prática é que dificilmente as mulheres reclamam da sobrecarga, uma vez que já estão acostumadas com ela. Nós internalizamos que somos multitarefas e que podemos dar conta de tudo. Mas isso não é justo”, pontua Taranto.

O estudo também encontrou diferenças baseadas na educação dos pais. Filhas de graduados universitários gastam 25% menos tempo em tarefas domésticas do que filhas de pais com não mais do que o ensino médio. Mas elas ainda gastam 11 minutos a mais do que os filhos. Pais educados parecem ter mudado suas expectativas em relação às filhas, mas não por seus filhos.

Desigualdade até nos pequenos momentos

De acordo com a reportagem do jornal, foi realizado um levantamento com os dados de 10 mil famílias que utilizam o BusyKid, um aplicativo de tarefas domésticas. Os meninos que usaram o aplicativo ganharam o dobro que as garotas para fazerem as tarefas – uma média de US$13,80 por semana, em comparação com os US$ 6,71 das meninas.

De acordo com o app, os meninos recebem mais por realizarem a higiene pessoal, como escovar os dentes ou tomar banho, enquanto as meninas recebem pela limpeza da casa. “A educação das próximas gerações precisa estar baseada na justiça e na igualdade de direitos e deveres enquanto cidadãos, homens e mulheres. Como demonstram as pesquisas, a forma como as crianças são criadas molda os papéis que assumem na vida adulta”, ressalta Taranto.

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Diferença de gênero pelo mundo

Essa diferença de gênero é mundial. Um outro estudo, publicado no Journal of International and Comparative Social Policy, revela as atividades diárias de crianças ao redor do globo. Foram entrevistadas mais de 54 mil crianças de 8 a 12 anos, de 16 países em quatro continentes.

O resultado espelha o que ocorre nos Estados Unidos. As meninas fazem mais o trabalho interior – como cozinhar, limpar e lavar roupa – enquanto os meninos fazem mais o trabalho externo, como cortar a grama ou tirar o lixo.

Por outro lado, a pesquisa de Hofferth apontou que há sinais de mudança nessa diferença de gênero. Os meninos empregam a mesma quantidade de tempo que as meninas no cuidado de membros da família, como irmãos ou parentes mais velhos – eles também estão mais carinhosos e amáveis.

Isso espelha a mudança com adultos. Um painel da Universidade de Michigan constatou que os homens casados gastam cerca de 1,1 hora por dia em tarefas domésticas, acima dos 55 minutos registrados em 1983. O tempo gasto pelas mulheres casadas nas tarefas diminuiu, mas ainda é o dobro dos homens: 2,2 horas por dia, abaixo das 3,8 horas na década de 80.

“A divisão desigual em casa influencia negativamente no ambiente de trabalho. Normalmente, as mulheres, que estão acostumadas com multitarefas, assumem mais atribuições sem se darem conta da sobrecarga e é raro quando reclamam. Isso tem um limite. A incidência de doenças como depressão e ansiedade nas mulheres é maior, fruto, em parte, dessa sobrecarga”, conclui Taranto.

Fotos: Fotolia

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Gabriella Bertoni
Gabriella Bertoni
Repórter, produz matérias para o Finanças Femininas. Apaixonada por livros e por contar histórias, é recém-chegada em São Paulo e ainda está completamente perdida, mas adorando a cidade.
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