Mercado literário: livros escritos por mulheres custam metade do preço

Mercado literário: livros escritos por mulheres custam metade do preço

Quantos livros você já comprou na vida? Destes, quantos foram escritos por mulheres? Pois saiba que você possivelmente pagou quase a metade do preço que pagaria se esse mesmo livro tivesse sido escrito por um homem. Essa é a conclusão de uma investigação conduzida pela socióloga Dana Beth Weinberg e pelo matemático Adam Kapelner, da Queens College, em Nova Iorque. O resultado foi publicado em abril, na revista científica online PLOS One.

Eles analisaram quem escreveu, o preço, o gênero literário e o tipo de edição de mais de 2 milhões de livros publicados na América do Norte (EUA e Canadá) entre 2002 e 2012. A conclusão é que as mulheres são desvalorizadas em vários níveis: seus livros custam, em média, 45% a menos do que os títulos assinados por homens. Além disso, as mulheres são pouco representadas em gêneros habitualmente mais prestigiados (e caros), como os do meio científico.

Dentro do mesmo gênero literário, as mulheres recebem 9% a menos em relação aos homens. Já nas editoras independentes, onde os autores geralmente retiram pouco lucro e conseguem definir o preço dos seus próprios livros, as mulheres ganham 7% a menos. Isso quer dizer que, apesar de serem mais igualitárias, as pequenas editoras ainda reproduzem o comportamento das grandes editoras.

Além disso, a maioria das obras produzidas por mulheres são de categorias como culinária, artesanato e hobbies, família e relacionamento. Os homens são maioria como autores das publicações (45% dos títulos), enquanto as mulheres assinam 26% e, por fim, 29% das obras analisadas na pesquisa não tiveram o gênero de quem as assina especificado.

Já são séculos de pseudônimos para conquistar o mercado editorial

“A literatura não é uma ocupação para a vida de uma mulher”. Essa foi a frase que as irmãs Emily e Anne Brontë Charlotte ouviram ainda no século XIX. Para que seus romances tivessem uma chance e se tornassem um dos maiores sucessos da época, como de fato aconteceu, elas precisaram adotar os nomes masculinos Ellis e Acton Bell no início da carreira.

Outro caso histórico é o de Mary Anne Evans que, também no século XIX, precisou se passar por George Elliot. Entretanto, engana-se quem pensa que esse tipo de acontecimento é algo do passado e já superado pela idade moderna. Um caso parecido – e talvez o mais famoso da atualidade – influenciou a autora da terceira série cinematográfica de maior bilheteria de todos os tempos, com US$ 8,5 bilhões em receitas, perdendo apenas para o Universo Cinematográfico Marvel e para Star Wars.

Estamos falando da série Harry Potter, da autora J.K. Rowling. Ela escolheu por deixar apenas as iniciais de seu nome (Joanne Kathleen Rowling, o segundo em homenagem à sua avó paterna) com a intenção de cativar os leitores masculinos. Hoje, ela é a autora britânica com o maior número de vendas, chegando a mais de 238 milhões de libras em livros vendidos.

“Não dá para julgar as autoras que fazem isso. É preciso compreender e combater o que fez com que elas se escondessem. Eu nunca me escondi atrás de homem, mas o machismo me atingiu (e atinge) de outras maneiras. Atinge, por exemplo, quando fecho um trabalho com uma mulher e quem negocia comigo é o marido dela. É mais difícil ainda porque o clima de competição sempre foi instigado entre nós, de nos vermos como rivais e não como aliadas”, comenta Janine Rodrigues, escritora e fundadora da editora de livros infantojuvenis Piraporiando.

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A solução está no fim do machismo

Para Rodrigues, não é só no universo literário que o machismo precisa acabar para que sejamos reconhecidas. Entretanto, mesmo sendo uma resposta simples, é algo de difícil execução, pois a igualdade de gênero é construída a partir de muito trabalho e com conquistas diárias. “Essa mudança também está nas mulheres que atuam em editoras e que podem usar sua voz para divulgar uma mulher escritora, e nas mulheres que leem mulheres. Pode até parecer estranho falar para mulheres lerem mulheres, mas, na vida real, precisamos de representatividade.”

A primeira dica da especialista para quem tem o sonho de seguir carreira e transformar ideias em livros é ter cuidado com pessoas que querem se aproveitar do seu trabalho. Isso porque acontece de profissionais prometerem inúmeras chances de sucesso e pedirem um adiantamento para publicar seu livro. Para que isso não ocorra, avalie se há lógica no que é oferecido. “Publicar um livro é a parte mais fácil. Distribuir, vender, divulgar, se relacionar com seus leitores, tudo isso é que fará com que seu trabalho se solidifique. Isso não é rápido. Tem frutos que eu colho hoje de sementes que plantei em 2013”, ressalta.

Por outro lado, não acredite que o mundo quer te passar a perna. Existem muitos profissionais sérios no mercado editorial, com oportunidades bacanas e que querem uma parceria justa. Para saber diferenciá-los, é preciso se envolver, conversar e participar de todo o processo.

“E, acima de tudo, faça o que você ama. Está é uma área com muitas belezas e muitos desafios. Quando ocorrer uma grande dificuldade, pense sempre no que te trouxe até aqui e o porquê de fazer isso. Se a resposta estiver relacionada a um sonho seu, a uma grande vontade, o esforço valerá a pena e isso te dará forças para seguir adiante”, conclui.

Fotos: Fotolia

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Gabriella Bertoni

Gabriella Bertoni

Repórter, produz matérias para o Finanças Femininas. Apaixonada por livros e por contar histórias, é recém-chegada em São Paulo e ainda está completamente perdida, mas adorando a cidade.
Fale comigo! :) gabriella@financasfemininas.com.br

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