Mulheres negras: racismo impede ascensão nas empresas

3 de junho de 2020 - Por

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Algumas pessoas ainda tentam negar e tem receio de falar, mas a normalização e reprodução do racismo atrapalha muitas mulheres negras no mercado de trabalho. Essa realidade atinge o interior das instituições que repetem as práticas racistas, elevando ainda mais o abismo da desigualdade racial, como apontou o estudo Panorama Mulher 2019, que traz um comparativo histórico das mulheres nos cargos de liderança das organizações no Brasil.

O levantamento realizado pela Talenses e Insper revelou que das 415 empresas com cargo de presidente, 95% são homens ou mulheres brancas. Nas organizações presididas por mulheres há apenas uma mulher negra no cargo, nenhuma ocupando a vice-presidência ou conselho e apenas 1% faz parte da diretoria.

No país em que as mulheres negras compõem a maior parte da população, somando quase 60 milhões de pessoas, o percentual acende um alerta vermelho para a urgência de encarar e combater o racismo que se manifesta em forma de silenciamento, violência psicológica e física.

A pandemia do novo coronavírus pode agravar a situação, considerando que as mulheres negras fazem parte do grupo mais vulnerável à crise. O temor de perder o emprego atual é uma preocupação para 76% das profissionais que trabalham em empresas nacionais, segundo um estudo produzido pelo Empodera, Empregueafro e Faculdade Zumbi dos Palmares

Quais os impactos do racismo na vida das mulheres negras?

Frequentemente, nós somos bombardeados pela mesma narrativa audiovisual que sempre colocam as mulheres negras no papel de coadjuvante e as brancas como protagonista. Todo esse conteúdo ficcional das novelas, filmes e desenhos contribui com o imaginário de que pessoas negras não podem almejar posições mais altas, como CEOs de companhias, diretorias de bancos, entre outros.

Quando uma mulher negra alcança um cargo importante, é constantemente alvo de uma patrulha que busca desqualificá-la profissionalmente, como aconteceu recentemente com a jornalista Maju Coutinho, que em outubro de 2019 passou a apresentar o jornal Hoje – noticiário vespertino da TV Globo – e foi duramente criticada pelo portal “Notícias da TV” que listou os erros comuns de quem assume o comando de um telejornal importante.

Esse triste episódio que tomou as redes sociais no início do mês, deixa evidente o quanto o racismo atinge as mulheres negras. Afinal, basta pesquisar no Google e você não encontrará críticas tão rígidas sobre o trabalho de um jornalista branco.

Para Alexandra Loras, ex-consulesa da França e consultora existe um preconceito muito grande de que a mulher negra tem capacidade inferior, contudo existem muitas mulheres negras com ensino superior e preparadas para ocupar cargos de liderança nas empresas. “Com poucos recursos em 2018, eu criei uma plataforma que cadastrou 7 mil negros com mestrado e doutorado que procuravam emprego. Desse número, 458 foram contratados, mas não consegui manter o Protagonizo por falta de recursos. Ninguém quer investir na nossa cor, ninguém”, afirma.

Homens são contratados pelo potencial de desenvolver uma liderança, mas mulheres precisam mostrar resultados para ter legitimidade e alcançar a liderança no mercado de trabalho, segundo Loras. “Quando eu vou palestrar na multinacionais, eles sempre me contrataram para falar sobre gênero, justificando que a empresa não está preparada para falar da questão racial e sempre aponto que a maioria das mulheres no Brasil são negras. Eles ficam surpresos, porque não reparam nesse dado”, conta.

Mulheres negras: racismo impede ascensão nas empresas

A política de cotas nas universidades federais representam uma medida de reparação aos negros que, em sua maioria, não tem acesso à educação de qualidade. Estudantes pretos e pardos de graduação representam 51,2%, de acordo com o levantamento realizado pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) em 2018, nas instituições de ensino superior brasileiras. O estudo também revelou que 70,2% dos alunos são de famílias com baixa renda (renda per capita de até um salário mínimo e meio).

“Eu gostei muito quando surgiram as cotas para negros nas universidades, porque é a única maneira que a gente tem para que essas pessoas tenham acesso à educação. E tem que ser feito desse jeito, se não a gente nunca vai reverter esse quadro”, diz Maria Fernanda Teixeira, CEO da Integrow e cofundadora do grupo de Mulheres do Brasil.

Mercado de trabalho: combater o racismo é responsabilidade das empresas

Diante desse cenário escandaloso de poucas mulheres negras em cargos de liderança, as empresas precisam assumir a responsabilidade de mudar essa realidade para diminuir a desigualdade racial.

Teixeira acredita que determinar uma meta de contratações de pessoas negras não é suficiente. É necessário criar mecanismos e treinar os demais funcionários para receber os profissionais negros. “Você encontra uma mulher negra no corredor da empresa e acha que ela é a copeira ou a pessoa da limpeza e, muitas vezes, até se dirige a ela dessa forma. Se é um homem negro, provavelmente é da área de segurança. Temos esses vieses inconscientes e o que nós estamos fazendo nas nossas empresas para mudar?”, pondera.

Na Integrow, onde é CEO, Teixeira estabeleceu o objetivo de contratar um número significativo de profissionais negros, com os mesmos direitos e benefícios dos demais funcionários. No entanto, percebeu que as pessoas não estavam interagindo bem e a maioria dos profissionais negros pediu demissão pelo ambiente hostil.

“Isso acontece porque a pessoa se sente mal, às vezes pessoas vão almoçar em determinado restaurante e a pessoa não vai, porque ela não se sente incluída. É para pensar o que devemos mudar dentro das nossas empresas para incluir e não só ter um número na hora da admissão, é como vai incluir e oferecer os mesmos direitos para que ela tenha ascensão profissional”, afirma.

Fotos: AdobeStock

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Carol Nogueira
Carol Nogueira
Repórter do Finanças Femininas, fã de David Bowie e John Coltrane. Passa o tempo livre pesquisando textos da Sylvia Plath e assistindo séries na Netflix.
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