Não esqueça da minha Caloi

30 de agosto de 2016 - Por

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*Carolina Ruhman Sandler

Quem cresceu nos anos 1980 e 90 com certeza se lembra desta campanha: o filho que deixava diversos lembretes ao pai para que não se esquecesse de lhe dar uma bicicleta na próxima data comemorativa. Não esqueça da minha Caloi. Que mudança para os dias atuais.

Hoje não existe espera, é tudo para agora. Hoje não existe desejo, pois todas as vontades são atendidas imediatamente. Hoje não existe expectativa, pois dá para parcelar tudo no cartão – e se você estiver na dúvida, é o que vai ouvir de todas as vendedoras de loja.

Vivemos o tempo da gratificação imediata. Por que esperar o Natal, se a minha mãe pode encomendar o brinquedo que vi na propaganda agora mesmo pela internet? E o pior: não são só as crianças que não conseguem esperar. Ou vai me dizer que você consegue ver algo que queria comprar, juntar dinheiro aos poucos e depois ir na loja para comprar à vista?

A realidade é que são poucos os que conseguem. E hoje isso ficou difícil por todos os lados: as tentações são inúmeras e as lojas trocam de coleção o tempo todo. Se você viu um sapato que queria, ele pode não estar lá na semana que vem. Ficou tudo pop up, fast fashion, parcelado em 10 vezes no cartão.

Não quero ser daquela turma que diz que no passado era tudo melhor, mas não sei não. Quando era criança, ninguém da escola tinha ouvido falar em brinquedoteca – essa palavra não existia nem nos nossos sonhos. Hoje, o desejo de consumo de tantas mães é ter um cômodo da casa para ser a brinquedoteca de uma ou duas crianças.

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Hoje o acesso é muito fácil: toda informação ou conhecimento está a um clique de distância. Não preciso mais esperar chegar a hora do meu programa favorito na TV: tenho tudo a hora que quero pelo Netflix e YouTube. Quando eu era garota, meu programa de tantas tardes era ficar colada no meu rádio, esperando tocar as minhas músicas favoritas para poder gravá-las em uma fita cassete. Vá explicar isso para um adolescente de hoje, que vive no Spotify, Deezer e Apple Music (assim como eu).

Perdemos o senso de espera, de expectativa, de sonhar com algo que só acontece no Dia das Crianças, Natal e aniversários. Hoje todo dia pode ser uma data especial: é só parcelar no cartão. O problema é que as dívidas crescem e, paradoxalmente, o valor que damos aos bens que temos só diminui. Tudo fica descartável, compramos roupas que sabemos que não duram mais do que 10 lavagens – e parece tudo bem. Cadê o espaço para o atemporal e clássico?

Eu acredito que podemos nos beneficiar muito se resgatarmos um pouco deste molde antigo, no qual tínhamos tempo para sonhar e esperar antes de ter o que queríamos. Assim dá tempo de você ver se aquela compra vale mesmo a pena. Se aquele dinheiro que demorou tanto para juntar vai ser bem gasto naquela bolsa ou celular, ou se eles são apenas uma variação sobre o mesmo tema.

Esperar, ter paciência, saber escolher e priorizar – estes são os valores da educação financeira. Se colocarmos um freio entre nossos desejos e a sua realização imediata, podemos aprender a comprar melhor, gastar menos, valorizar mais o que temos. E, de quebra, ainda passamos novos valores para nossos filhos – aqueles velhos valores de sempre.

*Carolina Ruhman Sandler é a fundadora do site Finanças Femininas e coautora do livro “Finanças femininas – Como organizar suas contas, aprender a investir e realizar seus sonhos” (Saraiva). Jornalista, tem 32 anos, é casada e mãe da Beatriz.

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Fotos: Shutterstock

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Carol Sandler
Carol Sandler é fundadora do Finanças Femininas, a maior plataforma online do Brasil de empoderamento feminino através da educação financeira. Apresenta o quadro "Carol, cadê meu dindin" semanalmente no programa SuperPoderosas, da TV Band. Autora do livro "Detox das Compras (Saraiva, 2017) e coautora do livro “Finanças Femininas – Como organizar suas contas, aprender a investir e realizar seus sonhos” (Saraiva, 2015), junto com o economista Samy Dana. Estudou Jornalismo na PUC-SP e Economia e Relações Internacionais no Institut d’Études Politiques de la France, em Paris. Colunista do site da revista CLAUDIA e do portal Tempo de Mulher.

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