O custo de ser transexual no Brasil

9 de dezembro de 2015 - Por

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*Ariel Nolasco

Logo que me assumi mulher trans lembro dos vários questionamentos que fiz à minha cabeça, “como vou arranjar emprego?”, “como vou pagar meus hormônios e consultas médicas?”, “como vou sobreviver nesse país altamente transfóbico?”, e várias outras questões que rodearam minha cabeça durante muito tempo. Mas esses questionamentos não eram em vão, eram perguntas sólidas, por já ter ouvido de outras pessoas trans e travestis a dificuldade de se manter (financeiramente) após a transição.

Por vivermos numa sociedade transfóbica, e principalmente no Brasil, que é o país que mais mata travestis e transexuais (segundo a ONG TGEU – Transgender Europe), é de uma dificuldade imensa que arranjemos um emprego para nos sustentar, pagar nossas contas, procedimentos estéticos e cirúrgicos, etc. Vivemos em uma sociedade onde nos é ensinado que se quisermos ter dinheiro, temos que ‘fazer esquina’; programa. E nem todas as travestis e mulheres transexuais querem ficar na prostituição ou se inserir nesse espaço, mas é fato que todas queremos oportunidades para estarmos em todos os espaços.

Lembro que nos primeiros meses de hormonização, gastei um dinheiro imenso. No Brasil, São Paulo é referência no processo transexualizador, ou seja, no processo de hormonioterapia, consultas médicas, etc. Porém tudo demora. Os atendimentos, por estarem sobrecarregados, demoram meses até a primeira consulta. Em média, o tempo de espera é de 9 à 24 meses, o que faz com que muitas pessoas acabem se auto medicando ou procurando médicos particulares que entendam minimamente sobre hormonioterapia. Eu fui uma daquelas que procurou uma endócrina particular. E nesses primeiros meses, de consultas, hormônios, eu gastei muito dinheiro, dinheiro o qual eu já não tinha.

ariel-nolascoFoto: Arquivo pessoal

Atualmente essa é a realidade de muitos países. Cirurgias, acompanhamentos médicos, hormônios, tudo custa caro, e acompanhamento pelo estado demora. Por isso muitas pessoas se auto medicam, por isso muitas pessoas gastam muito dinheiro com isso. É uma faca de dois gumes, pois ou você aguarda durante muito tempo para ter uma ajuda – razoável – do estado, ou você arranja um dinheiro absurdo pra fazer tudo o que você quer na hora: hormônios, cirurgias, acompanhamentos médicos.

É necessário que duas coisas mudem, uma delas é que o acesso ao serviço público de saúde para hormonioterapia seja mais fácil e mais rápido. Muitas pessoas não conseguem esperar todo esse tempo para iniciar suas transições, e compreendo isso perfeitamente pois estamos falando da necessidade e do desejo do indivíduo, e devemos lembrar que desejos e necessidades podem ser subjetivos a cada ser humano, pois cada um prioriza coisas diferentes em suas vidas. A outra coisa que precisa ser modificada é o custo dos procedimentos particulares, se não o custo, as oportunidades à essa população que usufrui desses procedimentos. Segundo a ANTRA (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), estima-se que 90% das travestis e transexuais estão na prostituição. Se faz necessário, e de uma urgência tremenda, que essa população tenha outras oportunidades na vida, que não sejam só a prostituição.

“Ariel, aquariana, gamer e militante da causa trans. Gosta de jogos, dona de podcast e escritora por lazer.”

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