O governo gere o país como os brasileiros cuidam de suas finanças

8 de setembro de 2015 - Por

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*Naiara Bertão

Bom dia, pessoal,

em minha experiência profissional, lido muito com planilhas de dados para divulgação pra imprensa e fico boquiaberta com a quantidade de pessoas que não conseguem equilibrar o orçamento e fecham o mês no vermelho. Também me deixa perplexa a quantidade de pessoas que deixa todo o dinheiro economizado na poupança, mesmo com a caderneta rendendo menos do que a inflação (ou seja, estão perdendo dinheiro). Mas sabe o que é mais me intriga disso tudo? É exatamente essa cultura que vemos na gestão das contas públicas.

Na semana passada, a principal discussão na economia girou em torno do projeto de Orçamento para 2016. Pela primeira vez, o governo enviou ao Legislativo um projeto de Orçamento que prevê gastos maiores do que as receitas no ano que vem. A expectativa é de que as contas públicas fechem 2016 com uma conta negativa de R$ 30,5 bilhões (0,5% do PIB).

Se pensarmos que poucos dias antes o IBGE havia confirmado que o país está em recessão econômica, as esperanças depositadas no ano que vem foram por água abaixo. É bem plausível imaginar que as projeções estão sendo revistas pelos economistas.

Assim como nós, quando estamos no vermelho, precisamos pegar dinheiro emprestado para cobrir o rombo e, por isso, pagamos juros. Com o governo é a mesma coisa. Para pegar dinheiro emprestado, ele emite títulos de dívida pública e se endivida ainda mais. Quem não gosta nem um pouco disso são aquelas agências de classificação de risco que já falamos aqui, que analisam o perfil de dívida de empresas, setores e governos.

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A equipe econômica da presidente Dilma Rousseff até tentou apaziguar os ânimos atônitos do mercado após a divulgação da projeção do orçamento, mas é muito difícil achar a parte cheia do copo se o Brasil já está enrolado até o pescoço com a questão fiscal.

É como a gente: se gastamos demais nas festas de fim de ano, o cartão de crédito entra em janeiro estourando. Se não conseguimos uma renda extra no início do ano ou cortar despesas, a dívida explode e temos que pagar caro por ela. O governo gastou o que podia e não devia nos últimos anos da presidência de Lula, nos quatro do primeiro mandato de Dilma e a fatura chegou.

Desde o início do ano a presidente calçou as sandálias da humildade e está se esforçando, sim, para tentar contornar a situação, em parte sua culpa. Joaquim Levy, ministro da Fazenda, protagonizou essa virada de postura e o mercado financeiro deu um crédito porque é uma pessoa muito respeitada. Mas… sempre há um mas… não se para de falar nos bastidores de Brasília e nas redações dos jornais de uma possível saída do ministro, que teria perdido força no governo.

Dilma veio em defesa dele dizendo que não passa de murmurinho sem fundamento. “Eu acho que é um desserviço para o país esse processo de transformar e de falar que o ministro Levy está isolado, está desgastado. Não está, não”, afirmou a presidente.

Quando Levy assumiu, um economista próximo a ele me disse que ele gostava de desafios. Mas acho que ele não esperava que o jogo seria tão truncado. O ministro vai ter que aprender na marra o gingado brasileiro para lidar com o orçamento zero.

*Naiara Bertão é jornalista formada pela ECA-USP, especializou-se em economia, negócios e finanças. Trabalha para o Guia Bolso e passou por diversos veículos  de comunicação do país, como Infomoney, Brasil Econômico e VEJA. Escreve sobre os principais acontecimentos econômicos da semana. 

Fotos: Shutterstock

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