Pagamento de dívidas: como fugir das ciladas dos bancos nessa crise

31 de março de 2020 - Por

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Muitos clientes ficaram entusiasmados com a possibilidade de prorrogar o pagamento de dívidas durante a crise. A medida foi anunciada pelos cinco maiores bancos do País (Bradesco, Itaú, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal), com o adiamento por até 60 dias do vencimento das parcelas para atenuar os impactos negativos do novo coronavírus na economia do País. No entanto, a empolgação abriu espaço para a frustração quando os consumidores encontraram canais de atendimento sobrecarregados e longos períodos de espera para receber apenas uma proposta de renegociação do débito com valores superiores ao do contrato atual.

No comunicado divulgado pela Federação Brasileira de Bancos (Febraban) no dia 16 de março, pessoas físicas, micro e pequenas empresas com pagamentos em dia podem adiar as parcelas de empréstimos e financiamentos em andamento. A medida não inclui contas de água, luz, telefone, cartão de crédito e cheque especial.

A Febraban ainda afirma que cada banco poderá definir os prazos e as novas condições de pagamento da dívida. Os clientes devem acionar os canais de atendimento das instituições financeiras para negociar a prorrogação.

“As medidas não são governamentais. Trata-se de um compromisso que os bancos assumiram e isso torna o processo mais delicado, porque eles podem optar por não oferecer esse prazo”, diz Ione Amorim, economista e coordenadora de serviços financeiros do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).

Informações desencontradas atrapalham a negociação das dívidas

A funcionária pública Maria Aparecida Silva Almeida ficou decepcionada quando ouviu a proposta de renegociação de um crédito pessoal da sua gerente no Itaú. “Ela disse que não tinha prorrogação, mas sim renegociação do valor. Eu já paguei nove parcelas do empréstimo e, na simulação, minha dívida cresceu de R$ 48.600,87 para R$ 69.596,64 com o pagamento da primeira prestação para o dia 20 de maio, pouco mais de 30 dias”, conta. São R$ 20.995,77 a mais.

Com um financiamento imobiliário na Caixa Econômica, a editora audiovisual Tiffany Rossi Castilho tenta solicitar a pausa das prestações desde que o banco anunciou a medida, no dia 26 de março, mas o aplicativo da instituição apresenta mensagem de erro, a central de atendimento está congestionada, o número no WhatsApp indica que o atendimento começará em breve e sugere que ela utilize o chat do site.

“Pelo Internet Banking, sou redirecionada para a página com as informações gerais sobre a pausa e o link para baixar o app. A opção de chat não funciona, você clica no link e ela apenas atualiza a mesma página. Não existe uma forma efetiva de falar com a Caixa e solicitar a pausa no meu financiamento. A próxima parcela vence em 10 dias, já está nos meus lançamentos futuros e não sei se vou conseguir solicitar a tempo”, relata.

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Em outra situação, Adriana* conseguiu adiar o pagamento da sua dívida por 60 dias com o Santander, mas percebeu o valor dos juros desse período acrescentados no saldo devedor: deixaram a dívida mais cara.

Segundo Amorim, o Idec já enviou uma carta ao Ministério da Economia e ao Banco Central solicitando um posicionamento que uniformize as regras e evite informações desencontradas.

“Os consumidores viram o anúncio, mas estão esbarrando em dificuldades no atendimento das demandas divulgadas. Com isso fica a ideia de publicidade enganosa, porque eles divulgam uma coisa e oferecem outra e nós queremos, dentro desse caos que estamos vivendo, trazer o mínimo de tranquilidade para o consumidor”, afirma.

O que os bancos dizem sobre a dificuldade no pagamento de dívidas?

O Itaú informou que “está cumprindo rigorosamente o compromisso assumido de atender a pedidos de prorrogação, por 60 dias, dos vencimentos de dívidas de clientes pessoas físicas e micro e pequenas empresas para os contratos vigentes em dia e limitados aos valores já utilizados”.

A instituição diz ainda que “caso se concretize o adiamento, as taxas de juros permanecem as mesmas do contrato original e o cliente evita atrasar seus pagamentos e sofrer com incidência de multas e encargos adicionais”. Todavia, admite que “em alguns casos, o valor da parcela do cliente pode aumentar em função de IOF e da aplicação dos juros do contrato original sobre a carência adicional”.

Por fim, afirma que “em nenhum momento haverá aumento nas taxas de juros ou cobranças adicionais pela operação”.

A Caixa Econômica ampliou a pausa no pagamento das dívidas para 90 dias e “nos contratos de financiamento habitacional, o valor das prestações pausadas será incorporado ao saldo devedor, e o pagamento diluído no prazo remanescente do contrato”.

Sem comentar o congestionamento nos canais de atendimento, o banco reforçou que a prorrogação para contratos de pessoa física pode ser solicitada pelo aplicativo da Caixa e telesserviço: 3004-1105 para capitais ou 0800-726 0505 para demais cidades, opção 7), de segunda à sexta feira, das 08h às 20h.

Já o Santander lançou um site para orientar os clientes adimplentes que desejam adiar o pagamento das dívidas por até 60 dias. Os contratos de crédito pessoal, unificado e reorganizado serão aditados, com manutenção da taxa de juros original, sem cobrança de multa. A medida é válida para contratações realizadas até o dia 13 de março de 2020. Com a prorrogação, o banco vai reajustar as próximas prestações e os vencimentos.

Para financiamentos imobiliários, não há alteração na data de vencimento do contrato, apenas a prorrogação da próxima parcela. A taxa de juros será mantida, não haverá cobrança de multa e os clientes devem efetuar os pagamentos dos seguros obrigatórios e tarifas de serviços administrativos, quando aplicáveis. O banco ainda informa que os juros, nesse período, serão acrescidos ao saldo devedor, que será atualizado e as parcelas serão ajustadas.

O Banco do Brasil afirmou que pessoas físicas com contratos vigentes podem renovar o prazo para pagamento da primeira parcela nas linhas de crédito direto ao consumidor.

“As carências para pagamento da primeira parcela variam até 60 dias na linha crédito automático e até 180 dias para as linhas de crédito salário e crédito consignado sem, no entanto, comprometer o fluxo de pagamento do cliente, que continuará com uma única parcela para pagamento em cada mês”.

Além disso, o Banco do Brasil oferece a “renegociação massificada de dívidas para pessoas e empresas, com dispensa da primeira parcela, carência de 90 dias e prazo de dois a 100 meses para o novo contrato”.

O Bradesco disse que está à disposição para prorrogar por 60 dias as prestações de financiamento de seus clientes. “A taxa de juros inicialmente contratada será mantida e haverá a cobrança proporcional dos juros, considerando a carência solicitada para o período restante da operação”. A instituição ainda afirma que “o valor postergado será diluído nas prestações restantes”.

Clientes das linhas de crédito pessoal, parcelado e capital de giro e cheque especial podem solicitar a prorrogação mediante contato telefônico com a sua agência. Para financiamento imobiliário, o banco disponibilizou um formulário no Internet Banking, que deve ser preenchido, assinado e enviado por e-mail para a agência do cliente.

Por que a dívida fica mais cara com essa negociação?

De acordo com o Idec, os clientes precisam compreender que as medidas anunciadas pelos bancos são destinadas às pessoas que perderam o emprego, tiveram a jornada de trabalho e salários reduzidos ou autônomos que perderam sua renda pela impossibilidade de abrir seu negócio no período de isolamento social.

Amorim alerta que a prorrogação não é gratuita e que terá impacto no valor total da dívida. “Ao retirar o valor de um contrato e transferi-lo para o final, você está apenas adiando a parcela e sobrecarregando de juros, com a mesma taxa”, diz.

A economista explica que quando os comércios oferecem prazos de 90 e 60 dias para pagar as parcelas, os valores são corrigidos monetariamente por uma taxa chamada juros de acerto.

“Muitos bancos estão fazendo isso e os contratos longos vão ter esses juros de acerto sobre as duas parcelas prorrogadas. Então, não necessariamente, houve a mudança da taxa de juros, mas o deslocamento das duas parcelas para o final do contrato que deixou a carência mais longa e aumentou o saldo devedor com a mesma taxa”, destaca.

Precisa de ajuda para adiar os pagamentos das dívidas? Procure orientação do Idec

Para o Idec, consumidores que não foram impactados financeiramente com a crise devem continuar mantendo seus compromissos dentro dos prazos, pois a medida dos bancos brasileiros acaba gerando mais custos e ampliando o saldo final da dívida.

Para clientes com a finanças apertadas e que vão precisar recorrer a prorrogação, o Idec recomenda solicitar o contrato do empréstimo com demonstrativo do custo efetivo total, observar se a taxa de juros foi preservada, não permitir cobrança de outras tarifas e imposição de serviços extras.

No caso dos financiamentos imobiliários e de veículos é necessário redobrar a atenção. “Qualquer medida precisa ser questionada. O consumidor precisa entender se é uma pausa que vai levar apenas a correção desse intervalo de 60 dias, como se fosse um contrato novo, ou se vai ser uma suspensão jogando a parcela para o final. É necessário, em ambos os casos, verificar a evolução da dívida e o custo efetivo total”, alerta Amorim.

Os clientes devem manter as conversas registradas por e-mail para ter alguma garantia em caso de propostas abusivas. Em caso de dúvidas, os consumidores podem procurar o Idec e Procon da sua cidade.

*o nome foi ocultado para preservar a fonte.

Foto: AdobeStock

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Carol Nogueira
Carol Nogueira
Repórter do Finanças Femininas, fã de David Bowie e John Coltrane. Passa o tempo livre pesquisando textos da Sylvia Plath e assistindo séries na Netflix.
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