PIB cresce 1,0% em 2017: será que estamos saindo da crise?

1 de março de 2018 - Por

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Depois de dois anos seguidos enfrentando quedas – 3,6% e 3,8% em 2016 e 2015, respectivamente –, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro cresceu 1,0% em 2017, de acordo com dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nessa quinta-feira (1º).

Pode-se dizer que bons ventos sopraram sobre o Brasil para termos o desempenho positivo – literalmente. Isso porque condições climáticas, bom solo e uma demanda externa aquecida fizeram com que o País produzisse uma safra recorde, que levou o setor agrícola a crescer 13% em 2017 e puxou o PIB para cima.

A boa sorte e alguns empurrões também se fizeram presentes em outros fatores internos e externos. “Do final do segundo trimestre para o começo do terceiro trimestre, percebeu-se uma retomada no consumo das famílias”, afirma Anderson Pellegrino, professor de Economia da IBE-FGV. O especialista enumera alguns fatores por trás desse turbo no consumo:

  • Liberação do FGTS de contas inativas. Quem não lembra do furor que foi para sacar essa grana, que até então estava parada? Muita gente aproveitou para quitar dívidas, mas, obviamente, as pessoas usaram parte do valor para voltar a consumir;
  • inflação baixa. O acumulado de 12 meses do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) ficou em 2,86%, de acordo com dados referentes a janeiro de 2018. “Como a inflação corrói o poder de compras, o fato de ela estar baixa aponta que houve fortalecimento do poder aquisitivo do consumidor”, diz Pelelgrino;
  • juros em queda. A taxa Selic bateu 6,75%, o menor patamar desde 1986. “Há um impacto advindo da maior facilidade e menor custo do crédito, uma vez que as taxas de juros caíram a níveis extremamente baixos. Isso, por sua vez, impulsiona de forma significativa a captação de recursos para consumo”, justifica Juliana Inhasz, professora de economia da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP).

Com o consumo aquecido, os setores de serviços e comércio também sentiram o impacto positivo. Mas a boa notícia mesmo veio do setor industrial. Pellegrino explica que os demais fatores – crescimento do consumo e supersafra agrícola – dependeram de elementos muito pontuais, como fatores climáticos e a injeção de adrenalina que o saque do FGTS deu no consumo das famílias.

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A recuperação da indústria, porém, parece ter raízes mais firmes – especialmente o ramo automobilístico, que aumentou a produção para suprir a demanda de países do Cone Sul, com destaque para a Argentina. Produzindo mais, ela acaba gerando mais empregos. Empregos geram renda e, portanto, consumo, estimulando os setores de comércio e serviços. É um ciclo que se completa.

Será que estamos crescendo de verdade?

“Sim, a recuperação econômica está acontecendo. Apesar de alguns indicadores apontarem tímida recuperação, o conjunto nos é bem favorável”, garante Juliana. Porém, ainda não é o momento de soltar rojões e abrir a carteira, afinal, sair do fundo do poço é trabalhoso e demorado.

Pense que, nos últimos dois anos, o PIB brasileiro encolheu mais de 7%. Crescer 1% significa que ainda há um caminho para total recuperação e, só depois disso, crescimento real. É como se tivéssemos acabado de atravessar uma tempestade e, de fato, as nuvens estão se dissipando, mas o sol ainda não apareceu. Então, nada de colocar o biquíni para pegar um bronze.

As taxas de desemprego continuam alarmantes: 12,2% da população está procurando trabalho, o equivalente a 12,7 milhões de pessoas. Um estudo recente do SPC Brasil mostrou que o tempo médio de desemprego é alto – 15,25 meses entre as mulheres, quase três meses a mais que os homens, cujo tempo médio é de 12,43 meses.

Ou seja, se a situação ainda é delicada para a população em geral, as mulheres precisam tomar ainda mais cuidado por questões de machismo estrutural. “Se a recuperação do mercado de trabalho favorecer mais o gênero masculino, talvez as mulheres percebam a recessão como mais severa ou demorada do que os homens. No entanto, não é possível afirmar categoricamente isso com os dados fornecidos hoje pelo IBGE”, comenta Juliana.

A dica é segurar o consumo, manter as contas em dia, cuidar do orçamento, quitar as dívidas e não correr para tomar créditos, especialmente se você ainda estiver enrolada com algum débito.

A lição de casa do Governo

Para Pellegrino, a participação do Governo nessa retomada é “tímida”. Há tempos o Brasil vem fechando as contas no vermelho – um problema fiscal que apenas se agrava e traz consequências, como dívidas e a perda do grau de investimento na classificação de crédito. Junta-se a isso questões políticas.

“Isso limitou muito a capacidade do Governo de intervir na economia, liberando ele mesmo crédito, induzindo a atividade econômica com obras e parcerias. Esse seria o papel de indutor de crescimento em momentos de crise.”

Por isso, as tentativas vêm se mostrado insuficientes. “Ainda são necessárias reformas estruturais que resolvam a situação fiscal não apenas no curto como no médio prazo. Somente assim nosso crescimento econômico poderá se tornar uma trajetória autossustentável ao longo do tempo”, finaliza Juliana.

Fotos: Fotolia

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Ana Paula de Araujo
Ana Paula de Araujo
Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
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