“Saber gastar é melhor do que saber ganhar dinheiro”

4 de maio de 2018 - Por

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Quantas vezes você ralou para ganhar dinheiro, comprou algo e, tempos depois, se perguntou por que raios fez isso? Muita gente se pergunta isso, inclusive estudiosos e empresas interessadas em vender seus produtos e serviços. A demanda é tamanha que existe uma área da ciência dedicada a estudar estes e outros fenômenos: a antropologia do consumo.

“Ele tem como linha de pesquisa o consumo propriamente dito como forma de expressão de identidades. Seus respectivos códigos dão sinais do que importa para as pessoas, de acordo com seus contextos e momentos de vida”, conta Hilaine Yaccoub, doutora sobre o tema e especialista em classe C. Para estudar os hábitos de consumo dessa parcela da população, ela morou por um período em uma comunidade.

“Consumir é fazer parte”: como você gasta seu dinheiro diz quem você é

Como estudiosa, Hilaine tem uma visão muito particular do consumo: ela o enxerga como um modo de pertencimento. “Consumir é buscar uma experiência que, em um enlace de retorno externo, gera um equilíbrio interno. (…) Consumir é fazer parte. Só uma parcela pequena consome por compulsão”, diz

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Hilaine Yaccoub. Foto: Acervo Pessoal

Sendo o consumo uma forma de construção de identidade, para ela, apontar o que se acredita ser exagerado ou insano no consumo do outro pode ser não apenas uma grande intromissão, mas também uma forma de acusação. “O consumismo de certos itens, como roupa e livro, mantém a minha identidade atualizada. É preciso se colocar sempre no lugar do outro, esse é o ponto de partida, sempre.”

Confira trechos da entrevista com a especialista e aprenda mais sobre sua própria relação com consumo, dinheiro, independência financeira, empoderamento feminino e liberdade.

Você comenta que “consumir é fazer parte”. Como a mulher pode fazer com que isso seja uma experiência construtiva de identidade, e não algo prejudicial às suas finanças e vida em geral?

Saber gastar é melhor do que saber ganhar dinheiro. Nós, mulheres que somos motivadas a nos transformar cotidianamente e cada vez mais temos produtos e serviços com apelos maiores e tentadores, precisamos dar um drible nesse emocionalismo todo para pensar grande, como reais investidoras. Não é deixar de viver experiências ou comprar algo, mas de fato pensar em custo e benefício.

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Eu vou contar uma experiência que sempre acontece comigo: eu não costumo ir a shows, mas eu sou muito fã da Maria Bethânia. Quando ela faz um show, eu invisto no melhor ingresso, porque sei que me trará felicidade e me emocionará. Faço uma conta bem simples: se o valor do ingresso especial é R$ 600, divido esse valor por 12 meses, o que dá R$ 50 mensais. De fato, eu deixei de ir a 12 shows com entrada de R$ 50 reais para ir em um único show que eu amo e comprar um ingresso na área mais nobre.

Ou então, vamos falar de moda. Eu sei que um sapato de solado de couro que custa R$ 400 feito à mão poderá ser usado uma infinidade de vezes por anos. Dessa forma, eu costumo investir em peças mais caras, mais duráveis e com cores mais sóbrias para que o uso seja potencializado. Se dividirmos os usos e a durabilidade, o preço final do sapato foi bem compatível. No entanto, se sempre nos deixarmos levar pelo modismo – aquela moda que logo sai de linha -, sempre seremos reféns do dinheiro. O dinheiro precisa estar sempre ao nosso favor, e não o contrário. Costumo dizer que trato o dinheiro tão bem como trato meu marido: com muito respeito, zelo e cuidado.

Em seu trabalho, quais diferenças você encontra entre o consumo masculino e o feminino?

Acredito que tenham mais semelhanças do que diferenças, penso que somos todos seres humanos que vivem em sociedade e, portanto, temos muito em comum. Todos somos consumidores, independente de gênero. As diferenças são aquelas mais comuns, que já caíram no senso comum – as preferências dos homens por automobilismo enquanto mulheres gastem mais dinheiro com cosméticos. Mas essa diferença é uma fina camada de interpretação. O ideal é entender os gatilhos que fazem as pessoas consumirem, e aí temos grandes semelhanças.

Você pode falar mais sobre essa questão dos gatilhos de consumo entre homens e mulheres?

Os gatilhos são tudo aquilo que nos estimula – homens e/ou mulheres. Hoje em dia, há estímulos parecidos porque sentimos de forma igualitária, somos todos humanos e/ou pertencemos a grupos semelhantes, sejam de afinidades, estratos sociais parecidos etc. Há aqueles gatilhos (estímulos) que são culturalmente mais ligados ao universo feminino, como cores de esmaltes ou maquiagens, porque o nosso universo é repleto dessa narrativa.

Porém, há todo um universo da beleza masculina que vem crescendo – tutoriais de barbas e penteados masculinos já são uma realidade no campo do cuidado. O gatilho nesse caso é a moda, o bem-estar, a elegância, a ludicidade das transformações através da beleza – ou pelo menos do que se percebe como belo. Como disse, a motivação é a mesma: ficar bonito, estar no padrão, mas as expressões desse fenômeno são plurais.

Você notou alguma mudança no comportamento de consumo nas mulheres desde o boom da classe C?

Sim. Possivelmente, existem dados mais concretos de órgãos oficiais como o IBGE. No entanto, nas minhas pesquisas, percebo as diferenças no campo do consumo. Vejo as mulheres tendo mais acesso, pesquisando mais pela internet antes de comprar, um maior engajamento para a instrução, desde o campo técnico até o universitário.

Há um notório interesse em melhorar a casa em que vivem, em aprender a fazer receitas caseiras para embelezamento, o DIY [do it yourself, ou faça você mesmo] vem conquistando as massas. Elas passaram a controlar mais e melhor a vida rotineira através do WhatsApp, e também a colecionar muitas fotos através do Facebook e Instagram.

Como as mulheres se relacionam com seu dinheiro? E com o consumo?

Há todo tipo de relacionamento com o dinheiro: há quem saiba usá-lo, e há quem seja usado por ele. Tem mulheres que vivem correndo atrás porque são facilmente seduzidas por promoções ou por compras de impulso, e há também mulheres que sabem fazer dinheiro – e, possivelmente, esses dois exemplos podem ser encontrados na mesma mulher.

De modo geral, a mulher é provedora ou uma grande gestora doméstica, aprendeu a lida com esse “dinheirinho”. Porém, quando tratamos de grandes investimentos e em longo prazo, as mulheres ainda são minoria. Muitas são grandes investidoras do caixinha da casa, mas o cofre do banco, que poderia fazer o dinheiro render mais a longo prazo, está longe delas. Falta uma força e um entendimento maior sobre esse campo. Essa mulher continua se preocupando com os filhos, em não deixar faltar nada e trabalha muito, fora e dentro de casa.

Como a internet impactou o consumo das mulheres?

No acesso à informação. Hoje não dependemos mais de um profissional, estamos na época em que se formam autodidatas que nos dão dicas. O nobre amador se profissionalizou e temos gente de verdade do outro lado da tela nos dando dicas de como fazer, como comprar, onde ir. Não há mais uma única jornada de consumo: hoje temos um mapa lotado de possibilidades e com variadas rotas.

A internet, as recomendações, os vídeos caseiros, o movimento maker, o faça você mesmo, as resenhas de produtos e serviços criaram uma rede de oportunidades e facilidades no campo do consumo feminino – e masculino também, mas com forte apelo ao feminino porque vivemos mais apegadas aos detalhes. Quando pensamos em nail art, não temos ideia do universo que isso pode ter, assim como design, procedimentos estéticos, podcast de carreira ou maternidade. Como somos múltiplas, também intensificou o consumo desses muitos papéis que damos conta.

Como a maternidade mexe com a relação entre a mulher e o consumo?

Ela sempre coloca o filho em primeiro lugar. Essa é uma coerção social muito difícil de ser modificada, pois há aí uma relação entre natureza e cultura. Chega aí a vez da cultura se fazer presente em uma sociedade que defende e privilegia essa relação. A mulher acaba em segundo lugar, perdendo seu posto de destaque para o filho. Ela deixa de ser prioridade, inclusive para ela mesma, para colocar o filho no lugar. Isso a deixa feliz e realizada. A felicidade do filho passa a ser mais importante que a dela, e assim segue a sua vida vivendo em prol do outro, numa relação de amor que só quem vive a experiência conseguiria entender.

O que pode ser feito para que a relação entre mulher e consumo melhore?

No campo privado é saber que o dinheiro é um bem, seja no formato de papel quando pegamos ou quando olhamos nosso extrato bancário. Ele existe e está lá – tudo que gastamos, tudo que usamos de forma equivocada ou sem qualquer responsabilidade é nosso tempo desperdiçado, nossa energia.

O dinheiro é a consequência do nosso trabalho, é o agente que trocamos por nossa força, pelo tempo que não estamos com nossa família, o que não estamos fazendo quando estamos no lazer. É preciso ter mais responsabilidade com esse tempo, e com o que fazemos do dinheiro.

A consciência dos gastos precisa ser constante e incansável. Mesmo nas horas das indulgências – aqueles presentinhos que nos damos para aliviar tensões e fazer carinho em nós mesmas -, é preciso entender que o dinheiro sempre é uma mediação de uma escolha. Se usamos para determinado fim, deixamos de usá-lo para outro. Em tempos de tantas seduções, é preciso ser cada vez mais coerente com as escolhas.

E no campo de políticas públicas?

No campo das políticas públicas vivemos um período de instabilidade onde não sabemos como as reformas da previdência, ou do sistema de trabalho nos afetarão, cada vez mais nos educar para saber lidar com o dinheiro, com nossos ganhos, investir em opções mais concretas e rentáveis é sempre um indicador. As mulheres precisam se inteirar sobre como podem fazer render o dinheiro, fazer projetos em curto prazo, de menos 2 anos, como uma viagem; a médio prazo, até 5 anos, como a compra/troca do carro ou reforma da casa; e em longo prazo, mais de 10 anos, como aposentadoria ou a compra de um imóvel.

Fotos: Fotolia

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Ana Paula de Araujo
Ana Paula de Araujo
Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
Fale comigo! :) anapaula@financasfemininas.com.br

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