Salário mínimo para a família é quase quatro vezes menor do que o ideal, aponta estudo

13 de agosto de 2018 - Por

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Imagine uma casa onde dois adultos recebem, juntos, R$ 3.674,77 de salário mínimo? Essa é a quantia que uma família de quatro pessoas – com duas crianças – deveria receber em julho, de acordo com uma pesquisa do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Isso seria suficiente para arcar com os direitos previstos na constituição, como saúde, alimentação, moradia, educação, lazer, transporte, higiene, vestuário e Previdência Social.

Entretanto, o valor atual está muito longe disso. Hoje, o trabalhador brasileiro recebe 3,85 vezes menos o salário mínimo ideal para uma família (R$ 3.674). O valor atual do salário mínimo é de R$ 954, enquanto a pesquisa avalia que individualmente cada trabalhador deveria receber R$ 1.837,38, quase duas vezes mais do que o salário mínimo atual. Os valores são calculados de acordo com o preço da cesta básica mais cara em 20 capitais. Em São Paulo, o maior valor registrado foi de R$ 437,42 no último mês. Em relação a junho, a diferença entre o salário mínimo necessário e o real caiu. Naquele mês, a família precisaria de R$ 3.804,06 – 3,99 vezes o salário mínimo atual.

“Essa estimativa leva em consideração dois adultos e duas crianças que juntas consomem a mesma quantidade de alimento de um adulto, e tem base na Pesquisa Nacional de Cesta Básica. Isso seria o valor da cesta básica, que é a alimentação individual de um adulto, multiplicado por três”, explica Patrícia Costa, supervisora de preços do Dieese.

O que eu poderia comprar com esse valor?

Sabemos como é difícil para uma trabalhadora conseguir se manter no Brasil ganhando apenas um salário mínimo. O valor atual é incapaz de dar conta de despesas como aluguel, alimentação, estudos e as contas. Para você ter uma ideia, de acordo com o índice FipeZap, com R$ 1500 é possível alugar um apartamento de 41 m² em São Paulo. Orçamento muito maior do que o mínimo.

Se o salário mínimo ideal fosse o praticado, você conseguiria, por exemplo, contratar um plano de saúde, ter uma maior reserva de emergência e guardar um percentual maior da renda para investimentos. Isso resultaria em maior qualidade de vida para toda a família, que ficaria menos preocupada com o quanto de dinheiro falta para fechar as contas básicas do mês.

Salário mínimo x cesta básica

Com o valor do salário mínimo atual, a hora trabalhada custa R$ 4,34, enquanto o dia trabalhado sai por R$ 31,80. De acordo com a pesquisa, para comprar uma cesta básica em julho, foi preciso trabalhar, em média, 86 horas e 43 minutos. Em junho, a jornada necessária foi de 89 horas e 56 minutos. Isso significa que, depois de descontar o valor referente à Previdência Social, o trabalhador remunerado pelo piso nacional comprometeu, em julho, 42,84% do salário mínimo líquido para adquirir os mesmos produtos.

“O salário mínimo necessário é um valor de referência, com base no preceito constitucional. Quando o mínimo foi criado, ele era uma forma de distribuição de renda. No entanto, ao longo dos anos e, devido a alta inflação no Brasil, os governos passaram a usar o salário mínimo como um instrumento de contenção da inflação. Começou-se a tirar desse mecanismo o poder de compra, que era reajustado abaixo disso. Existe ainda um longo caminho para que ele retome o patamar de quando foi criado, em 1940”, comenta Costa.

Para 2019, o reajuste no salário mínimo será menor do que a inflação

A situação não estará melhor no ano que vem, quando o valor do salário mínimo será reajustado para R$ 988, de acordo com o que foi aprovado na Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO). Essa correção ficou abaixo da inflação acumulada pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) no ano passado, de 2,07%. Isso quer dizer que o salário perdeu poder de compra de 2017 para cá.

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“O salário mínimo real pago no Brasil está muito longe de garantir a uma família os proventos de todos esses itens previstos em lei de maneira completa. Um valor maior certamente teria um efeito positivo na economia como um todo, pois representaria mais poder de compra das famílias. Para tornar isso possível, é necessário aumentar a produtividade do trabalho no Brasil, ou seja, aumentar a produção (riqueza) do país com o mesmo número de trabalhadores que temos. Esse cenário positivo só será possível com investimentos maciços em educação, qualificação, inovação e infraestrutura”, pontua Uirá Semeghini, professor de economia da IBE Conveniada FGV.

Como um salário mínimo digno impactaria o País?

O aumento do salário mínimo agregaria qualidade de vida não apenas ao trabalhador brasileiro, mas para todo o Brasil. Seriam milhões de famílias com aumento de renda e mais poder aquisitivo, o que faria a economia girar de maneira mais eficiente, ajudando, assim, as empresas a crescerem e produzirem mais. Isso tudo resultaria em aumento coletivo do bem-estar de todos.

“Recentemente, o país atravessou um momento como esse, de aumento na renda agregada. Os resultados foram bastante positivos, com crescimento na venda de automóveis, imóveis, eletrodomésticos, viagens – inclusive as aéreas –, entre outros itens. No entanto, infelizmente foi passageiro, faltou ao País aproveitar essa onda e investir mais em educação e infraestrutura. Os bons ventos passaram e não soubemos aproveitar”, avalia Semeghini.

Fotos: Fotolia

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Gabriella Bertoni
Gabriella Bertoni
Repórter, produz matérias para o Finanças Femininas. Apaixonada por livros e por contar histórias, é recém-chegada em São Paulo e ainda está completamente perdida, mas adorando a cidade.
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