Setembro amarelo: qual é a relação entre suicídio e trabalho?

Setembro amarelo: qual é a relação entre suicídio e trabalho?

Falar sobre suicídio é difícil: há quem acredite que mencionar o tema incentive o ato. Há, ainda, quem não dê a devida atenção para a gravidade do assunto. No entanto, por trás de todo esse tabu, há dados alarmantes: cerca de 11 mil pessoas tiram suas próprias vidas todos os anos no Brasil, segundo o último (e primeiro) boletim epidemiológico sobre suicídio divulgado pelo Ministério da Saúde – é a quarta maior causa de mortes entre jovens de 15 e 29 anos em nosso País.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), no mundo, ocorre um suicídio a cada 40 segundos. Neste cenário, dedicar um mês inteiro para tirar o assunto das sombras – o Setembro Amarelo – é mais do que necessário. Trata-se de uma campanha mundial, trazida ao Brasil pelo Centro de Valorização da Vida (CVV) e outras entidades, como a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). O objetivo é conscientizar a população sobre a realidade do suicídio – existe prevenção em mais de 90% dos casos, de acordo com a OMS.

“Segundo o Sistema Único de Benefícios (SUB), no Brasil, os transtornos mentais e comportamentais foram a terceira causa de incapacidade para o trabalho, considerando a concessão de auxílio-doença e aposentadoria por invalidez, no período de 2012 a 2016”, diz Antônio Geraldo da Silva, psiquiatra, diretor tesoureiro e superintendente técnico da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e presidente eleito da Associação Psiquiátrica da América Latina (APAL).

Já na Europa, dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) mostram que o estresse ocupa a segunda posição entre os problemas de saúde relacionados ao trabalho, afetando cerca de 40 milhões de pessoas.

Você não está sozinha, nem precisa passar por essa tempestade sozinha.

Suicídio e trabalho

Não existem dados oficiais que apontem essa relação aqui no Brasil. Porém, o Japão registra 2 mil mortes por trabalho excessivo por ano. O quadro de exaustão levou a jovem Matsuri Takahashi, de 24 anos, a tirar sua própria vida. Ela chegou a fazer cerca de 105 horas extras por mês.

No caso de Takahashi, a relação pode ser mais nítida, mas ela é exceção. “O suicídio é associado a muitos fatores, não sendo possível relacionar uma tentativa ou o próprio suicídio a um único fator, como questões de trabalho”, resume Carlos Correia, voluntário e porta-voz do CVV.

Segundo Mario Louzã, psiquiatra e bacharel em Filosofia, alguns dos fatores envolvem desde predisposição genética até ambientais, como situações estressantes e adversas. “Muitas vezes, o suicídio é a gota d’água de uma cadeia de eventos.” Em 90% dos casos, também há associação com transtornos mentais pré-existentes, como depressão, ansiedade, esquizofrenia ou dependência química, segundo a OMS.

Apesar disso, tanto Correia quanto Louzã apontam que, quando se observam os gatilhos relacionados ao trabalho, é comum encontrar estresse, sobrecarga, pressão por resultados, sensação de solidão ou exclusão, assédio moral ou sexual e medo de desemprego.

Suicídio: um problema entre médicos e bancários

De acordo com Silva, alguns profissionais são estatisticamente mais propensos ao suicídio. Nos Estados Unidos, agentes da lei (como policiais), médicos e soldados são as profissões mais relacionadas, apontou um levantamento publicado no American Journal of Preventive Medicine. “Já estudos brasileiros indicam que bancários, anestesistas, oncologistas e enfermeiros são profissões com alta taxa de prevalência da chamada ‘Síndrome de Burnout’”, acrescenta.

Por outro lado, o desemprego e dificuldades financeiras também podem ser igualmente pesados. “Desempregados com problemas financeiros ou trabalhadores não qualificados têm maior risco de suicídio. Esta taxa aumenta em períodos de recessão econômica, principalmente nos três primeiros meses da mudança de situação financeira ou desemprego”, afirma Silva.

A gota d’água para nós, mulheres

Os homens são maioria quando se fala em mortes por suicídio: eles representam 79% dos casos. No entanto, nós ocupamos o triste primeiro lugar no número de tentativas: dados do Ministério da Saúde apontam que, das 48.204 pessoas que tentaram tirar a própria vida entre 2011 e 2016, 69% era mulheres e 31% homens.

Nós também detemos a maior quantidade de recorrência – no mesmo período, 31,3% das mulheres tentaram tirar a própria vida mais de uma vez, contra 26,4% dos homens.

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Eu preciso de ajuda?

Pense em sua saúde mental como um copo d’água que, aos poucos, vai enchendo. Quando ele está perto do limite, nosso comportamento muda, e é difícil nós mesmas percebermos isso. O mais tangível é reparar que as coisas que antes davam prazer já não são tão gostosas assim. Palavras sobre morte também vem à mente e aos lábios com maior frequência – mais do que gostaríamos. Em alguns casos, há uma vontade incontrolável de machucarmos a nós mesmas e, algumas vezes, acabamos cedendo a este impulso.

Fica difícil perceber isso em si mesma. Geralmente, algum amigo mais próximo repara e acaba nos alertando. É a hora que percebemos que precisamos esvaziar esse copo.

Silva lista alguns sinais de alerta:

  • Sensação constante de negatividade;
  • cansaço físico e mental constante e excessivo;
  • falta de vontade para fazer atividades sociais ou estar com outras pessoas;
  • dificuldade para se concentrar no trabalho ou tarefas diárias;
  • falta de energia para manter hábitos saudáveis, como ir à academia ou ter um sono regular;
  • sentimento de que não está fazendo o suficiente dentro e fora do trabalho;
  • dificuldade para gostar das mesmas coisas que se gostava anteriormente;
  • isolamento de pessoas próximas, como amigos e familiares.

“O importante é buscarmos sempre esvaziar esse copo, seja conversando com amigos, procurando profissionais da área da saúde mental, praticar um hobby, religião, enfim, cada um pode buscar o seu próprio caminho, já que ao sairmos para trabalhar não sabemos se naquele dia vamos encontrar essa gota que fará transbordar o nosso copo”, orienta o voluntário do CVV.

E não há mal algum em pedir ajuda: procurar um psicólogo ou psiquiatra é importante e indica que você quer superar tudo isso e sobreviver. Os voluntários do CVV também estão a postos no número 188, por email e por chat, no site da instituição.

“Existem alguns fatores protetores na prevenção do suicídio, que incluem bom suporte familiar, prática de exercícios físicos, alimentação saudável, boa higiene do sono, estabelecer limites, não sobrecarregar-se, aprender a dizer ‘não’, gerir o estresse, além de acesso a serviços e cuidados de saúde mental”, completa Silva.

Como identificar se um colega de trabalho está pensando em suicídio

A mudança de comportamento de um colega não pode ser tida como banal, especialmente se ele passa a não querer mais realizar atividades que antes lhe davam prazer, começa a falar em morte, se desfaz de objetos e outros itens queridos, tem queda no rendimento profissional e apresenta sinais de automutilação.

“Comentários que demonstrem desespero, desesperança e desamparo pedem atenção. Expressões como ‘estou cansado de viver’, ‘quero dormir e não acordar mais’, ‘não aguento mais essa vida’, ‘eu desejaria não ter nascido’, ‘caso não nos encontremos de novo’ e ‘eu preferia estar morto’ são alguns sinais de ideação suicida”, lista Silva.

Saiba que você pode fazer a diferença, desde que aborde a questão de maneira apropriada. Deixe o “Isso vai passar, não é nada” e o “Tem gente em situação pior” de lado, pois ninguém quer ter sua dor minimizada – essa pessoa só quer se sentir respeitada e acolhida, sem julgamentos.

“É muito importante que todos nós estejamos atentos às pessoas que estão à nossa volta e que talvez precisem de nossa ajuda. Perguntar se ela pensa em se matar não estimula o suicídio, como muitos dizem, ao contrário, pode mostrar que alguém está preocupado com ela e abrir a oportunidade para uma conversa ou ela procurar o apoio profissional de um psiquiatra ou psicólogo”, afirma Correia.

O que as empresas podem fazer para prevenir o suicídio entre os funcionários

O fim trágico de Takahashi apontou apenas a ponta de um iceberg. Na época em que a japonesa tirou sua própria vida, a empresa Dentsu, na qual ela trabalhava, admitiu que cerca de 100 trabalhadores ainda faziam cerca de 80 horas extras por mês. Por trás do fim de uma vida existe um sistema exaustivo de trabalho.

Aqui entra o papel das empresas: prevenir o suicídio entre os funcionários é uma questão de reduzir os gatilhos, entre eles a sobrecarga de trabalho, pressão por resultados, assédio moral e sexual.

Outro braço de atuação são as campanhas de prevenção do suicídio e apoio emocional. É preciso dar espaço para debater o tema. “Um dos maiores problemas na prevenção é o silêncio, então só de se trazer dados confiáveis já há uma redução nos riscos. Muitas vezes relatar problemas emocionais pode ser considerado um sinal de fraqueza, fazendo com que as pessoas reprimam as suas emoções e não se exponham, aumentando também o risco”, comenta Correia.

Seja quem estiver enfrentando pensamentos suicidas – você, um colega de trabalho ou um subordinado –, o apoio é fundamental para superar essa tempestade.

Entre em contato com o CVV – Centro de Valorização da Vida

Telefone: 188

E-mail: atendimento@cvv.org.br

Site: https://www.cvv.org.br/

Matéria atualizada em 05/09/2018 às 12h35.

Fotos: Fotolia

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Ana Paula de Araujo

Ana Paula de Araujo

Repórter, produz o conteúdo multimídia do Finanças Femininas e é fã da Mulher Maravilha. Divide a vida de jornalista com a de musicista e tenta ajudar o máximo de pessoas nas duas profissões.
Fale comigo! :) anapaula@financasfemininas.com.br

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