Tarefas domésticas: mulheres dedicam quase o dobro de tempo que os homens, aponta IBGE

9 de junho de 2020 - Por

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A naturalização e romantização das tarefas domésticas e o cuidado de pessoas desempenhadas, sobretudo, pelas mulheres escancara o abismo da desigualdade de gênero, pode impactar o mercado de trabalho e dificultar o caminho para a equidade.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referente a 2019, mostram que as mulheres dedicam 21,4 horas semanais às tarefas domésticas, enquanto os homens destinam apenas 11,0 horas. A diferença de horas entre as médias masculina e feminina aumentou de 9,9 para 10,4 horas semanais, de 2016 para 2019.

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) aponta que a desigualdade de gênero também é discrepante no trabalho de cuidado de pessoas – crianças, idosos, enfermos ou pessoas com necessidades especiais –, sendo 36,8% para as mulheres e 25,9% para os homens.

O isolamento social colocou muitas famílias em casa e, apesar de ser uma oportunidade para debater e mudar a divisão de tarefas, o período em casa pode sobrecarregar ainda mais as mulheres que trabalham fora e já tinham que lidar com a dupla jornada.

Segundo o IBGE, as mulheres com trabalho remunerado dedicaram, em média, 8,1 horas a mais às tarefas domésticas ou cuidados em casa que os homens empregados. O cenário é ainda pior para as mulheres sem ocupação fora de casa, pois a média de horas despendidas com os afazeres foi de 24 horas semanais, enquanto os homens na mesma situação destinaram apenas 12,1 horas semanais.

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O fim da desigualdade de gênero passa por refletir o papel das mulheres na sociedade e romper com a lógica patriarcal que impõe sobre nós a responsabilidade de cozinhar, lavar, limpar e cuidar das crianças para manter o funcionamento da sociedade.

Trabalho doméstico deveria ser remunerado

O relatório Tempo de Cuidar – o trabalho de cuidado mal remunerado e não pago e a crise global da desigualdade, divulgado pela Oxfam em 2019, mostra que mulheres e meninas ao redor do mundo dedicam gratuitamente 12,5 bilhões de horas, todos os dias, ao trabalho de cuidado. A remuneração dessas atividades poderia injetar, pelo menos, US$ 10,8 trilhões à economia global.

Como principais responsáveis pelas tarefas domésticas e de cuidado, as mulheres ficam impedidas de buscar trabalhos remunerados e vulneráveis economicamente. Em todo o mundo, 42% das mulheres em idade ativa estão fora do mercado de trabalho, em relação a 6% dos homens, segundo a Oxfam.

A ausência de uma renda fixa traz inúmeras consequências no presente e futuro. No Brasil, por exemplo, muitas mulheres permanecem em relacionamentos abusivos e sofrem violência doméstica por não ter dinheiro para sair de casa e garantir o próprio sustento. Além disso, a dependência financeira ainda apresenta impactos no longo prazo visto que, sem renda, essas mulheres não terão aposentadoria.

Outro aspecto que acaba prejudicando as mulheres no mercado de trabalho é a maternidade. Pela Constituição, as mães têm 120 dias de licença e os pais apenas cinco, com possibilidade de prorrogação.

“Quando existe a possibilidade de alguém assumir um cargo de chefia e entre os concorrentes estão homens e mulheres, mas elas estão em idade fértil, a empresa vê como um problema. Por isso, a licença maternidade tem que ser igual. É para equalizar a capacidade de competição de homens e mulheres quando eles têm filhos, porque assim todos estarão cientes que ambos vão sair do trabalho por um tempo após o nascimento do filho. O mercado de trabalho não terá mais preconceito”, diz diz Lucilene Morandi, coordenadora do Núcleo de Estudos de Gênero e Economia da Faculdade de Economia da Universidade Federal Fluminense (UFF).

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Vale salientar que, muitas vezes, as mães são demitidas sem muita explicação. O levantamento “Licença maternidade e suas consequências no mercado de trabalho do Brasil” realizado pela Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getúlio Vargas, mostra que 48% das mulheres ficam desempregadas um ano após o parto.

Para Morandi, o custo das responsabilidades com o trabalho de cuidado acaba sendo apenas das mulheres. “Elas ficam sem renda ou com o salário menor. Nós deveríamos socializar o custo, assim como fazemos com o ganho”, afirma.

A igualdade de gênero é uma luta coletiva

Nenhuma mulher deveria escolher entre a carreira e a maternidade, afinal o cuidado com a casa e a criança não cabe somente à mulher, é uma responsabilidade coletiva. Diversos estudos comprovam que a igualdade de gênero traz benefícios sociais e econômicos.Na Suécia, onde o casal recebe 480 dias a partir do nascimento do filho.

Alguns movimentos defendem a remuneração do trabalho doméstico e de cuidado realizado em casa. No entanto, Morandi questiona se essas mulheres realmente querem permanecer nessa posição. “Nem sempre a mulher quer permanecer ali, às vezes ela quer ser médica ou ter outra profissão. O pagamento não seria uma solução geral, uma vez que, não são todas as mulheres que desejam permanecer nessa função.Muitas pessoas estão ali, porque não conseguem sair”, pondera.

Para a pesquisadora, o cuidado deve ser dividido socialmente com creches e escolas em tempo integral e de boa qualidade para todos, por exemplo. Mulheres com melhores condições financeiras conseguem pagar uma instituição para cuidar dos filhos, mas para mães de baixa renda a realidade é bem diferente.

“Mães e pais precisam sair para trabalhar com garantia que os filhos estão sendo bem cuidados. Isso é política pública para criar um suporte que permita o ingresso das mulheres no mercado de trabalho”, destaca.

Fotos: AdobeStock

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Carol Nogueira
Carol Nogueira
Repórter do Finanças Femininas, fã de David Bowie e John Coltrane. Passa o tempo livre pesquisando textos da Sylvia Plath e assistindo séries na Netflix.
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