Distúrbios alimentares: Daiana Garbin fala sobre como não enxergar o corpo como um inimigo

13 de junho de 2018 - Por

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Fotos: Mauricio Nahas

Nosso corpo é a nossa casa. E quando a gente não se sente em paz com a nossa própria morada, a vida perde qualidade. Daiana Garbin é jornalista, apresentadora, autora do livro “Fazendo as pazes com o corpo”, dona do canal EuVejo e por mais de vinte anos lidou com distúrbios alimentares.

Em entrevista exclusiva ao Finanças Femininas, ela traz uma importante reflexão sobre a relação que temos com o nosso próprio corpo e sobre os desafios que enfrentamos hoje para ficarmos em paz com quem somos. Vivemos um momento em que a busca incessante por padrões estéticos inalcançáveis é vendida como “saúde”. O impacto disso é enorme não só para os nossos bolsos – tendo em vista que a indústria fitness movimenta muito dinheiro -, mas também para a nossa saúde mental. Confira a entrevista na íntegra:

Karina Alves: Você falou dos 22 anos que passou lutando contra o próprio corpo. Durante esse período, o que pesou mais: a cobrança que você fazia sobre si mesma ou o peso da cultura de corpo perfeito que nos cerca?

Daiana Garbin: Sem dúvida foi a minha cobrança pessoal. Desde os meus 12 anos eu vivi como se “eu” e “meu corpo” fôssemos dois seres diferentes. Costumava me referir a ele como um ser estranho, distante, um inimigo, algo que eu não gostava e que não fazia parte de mim. Sonhava em ver meus ossos aparecendo sob a pele, e essa obsessão me perseguiu por mais de 20 anos.

K.A.: Qual foi o seu break point? Em que momento você percebeu que precisava buscar ajuda?

D.G.: No inicio de 2015 eu percebi que minha relação com a alimentação era um inferno. Na minha mente doente, junto com a minha “gordura” vinha o sentimento de fracasso, de inferioridade. Era uma sensação de inadequação, de vergonha, de total estranhamento em relação ao meu corpo que ficou insustentável. Foi ai que eu percebi que precisava de ajuda médica e comecei o tratamento.

K.A.: Essa cultura de buscar corpo perfeito sempre existiu, mas as mudanças tecnológicas pelas quais estamos passando parecem deixar o contexto mais perigoso. Vemos muitos jovens ficando famosos em canais de youtube e no Instagram, muitas vezes levando mensagens irresponsáveis para crianças e adolescentes (lembro-me de você comentando das meninas de 8 e 9 anos já reféns dos likes no Instagram). Como colocar freio nisso? Como enraizar conscientização sobre essas questões com crianças e adolescentes?

D.G: Tem 2 coisas que me preocupam demais:
1- A quantidade de pessoas com transtornos alimentares, inclusive famosas, modelos, blogueiras que falam de dietas e corpo perfeito na internet. Isso é muito perigoso.

2 – As pessoas com transtorno alimentar não fazem ideia da origem do sofrimento. Pensam que é vaidade, que apenas desejam a magreza, e não é isso! A questão é extremamente profunda. Em muitos casos o ódio ao corpo e o transtorno alimentar tem origem em traumas de infância, principalmente abusos sexuais, problemas de relacionamento com a família, baixa autoconfiança e baixa autoestima.

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Foto: Mauricio Nahas

Como colocar freio nisso é uma pergunta que eu não tenho uma resposta simples. O único caminho é: as pessoas que fazem isso precisam ter a responsabilidade de saber o mal que podem causar. Mas como quase todas estão doentes, elas não percebem o que fazem. A obsessão pelo corpo foi normalizada na nossa sociedade como “saúde”, “fitness”.

K.A.: Sobre a questão do excesso de atenção que as pessoas dão para dietas restritivas: de que forma você acredita que a sociedade pode retomar o caminho de se alimentar sem o peso da culpa, sem a paranoia de sair contando cada caloria que ingere?

D.G: Precisamos aprender a ter uma alimentação saudável e prazerosa e aprender a comer com calma, atenção. A honrar o nosso corpo e ouvir os sinais de fome e saciedade. Precisamos aprender a degustar os alimentos que gostamos. Todos eles. Sem culpa e sem sofrimento. A comida não é nossa inimiga. Quando você realmente entender isso, vai passar a comer menos porque vai aprender a degustar, a aproveitar, a saborear a comida. Isso é comer com tranquilidade.

Comer exageradamente ou compulsivamente para aliviar sofrimentos, não é aproveitar a comida. Para nós, humanos, a comida é muito mais do que uma necessidade básica de sobrevivência. Quando a mãe amamenta seu bebê, não está transmitindo só o alimento: está transmitindo amor, proteção, prazer, afeto, carinho, cuidado. É por isso que buscamos conforto na comida. E ela é capaz de nos dar, sim, um alívio imediato. Mas precisamos entender que a comida não vai preencher os nossos vazios. Temos que buscar respostas para as questões que nos angustiam.

Quando você está desconfortável, antes de atacar um bolo de chocolate, é preciso se perguntar: o que está causando esse desconforto? De fato, o chocolate propicia uma sensação de prazer, mas não elimina a fonte do problema. No momento em que aprendemos a enfrentar nossos fantasmas, a respeitar nossos sentimentos e a encarar o problema real, a comida deixa de ser uma muleta para aliviar o sofrimento.

K.A.: É muito comum a gente receber aqui relatos de mulheres que descontam frustrações, cobranças pessoais e outros problemas mais profundos em compras. As facilidades de parcelamento e as promoções ajudam a retroalimentar esses hábitos nocivos. Você sente que a indústria fitness também pesa a mão para se aproveitar das fragilidades das mulheres que estão nessa busca constante por um perfeccionismo que não existe?

D.G.: Sim, a indústria da beleza e a mídia tem um papel imenso nisso porque fazem a mulher se sentir sempre inadequada. Usam a nossa vulnerabilidade para ganhar dinheiro. Nos mostram que o nosso corpo é um molde de massinha, possível de modelar até ficar perfeito. A indústria da beleza faz a mulher esquecer que é um ser vivo, que nasceu com uma estrutura óssea e muscular diferente da dos outros, que cada corpo tem um formato e um tamanho únicos.

Precisamos refletir: por que vamos permitir que a indústria da moda, da beleza, os estilistas, as revistas, a indústria das dietas, as blogueiras, a internet, as redes sociais, a televisão e o cinema digam como o nosso corpo deve ser? Quem disse que existem corpos certos e errados? Quem disse que a magreza é a única possibilidade de amor, sucesso e felicidade? Quem disse que é errado ter celulite e estria? Não é errado. Definitivamente, não é. Errado é você adoecer para tentar transformar o seu corpo em uma fotografia perfeita. Seu corpo é humano, não é uma foto, não é uma tela, não é molde de massinha. O corpo NÃO pode ser uma prisão.

K.A.: Por fim, gostaria que você deixasse algumas palavras de inspiração para nossas leitoras que estão nessa realidade de se sentirem aprisionadas em padrões estéticos e que acabam gastando muito dinheiro para alcançar o corpo que sonham.

D.G.: O nosso corpo NÃO está errado. Quando você voltar a honrar e ocupar seu corpo, vai começar a sentir que ele é o seu lugar no mundo, que é o seu espaço, que é único, e assim você vai aprender a respeitá-lo e amá-lo. Se continuar permitindo que os outros tentem moldar sua aparência de acordo com um padrão “ideal”, vai ser difícil se amar e se aceitar de verdade. O corpo é seu, jamais se esqueça disso!

Tente deletar tudo o que você pensa sobre o seu corpo. Olhe-se no espelho como uma criança que está se vendo pela primeira vez, sem julgamentos, sem preconceitos. Ninguém nasce odiando o próprio corpo. Alguém nos ensina a não gostar dele. Mas veja, se aprendemos a odiar, também podemos aprender a amar! Talvez você encontre alguma resistência, mas não desista. Não é possível mudar de uma hora para outra algo que foi estabelecido há tantos anos. Nossa mente pode ser nossa pior inimiga, entretanto temos a capacidade de mudar o que se passa em nossa mente.

Os pensamentos pessimistas podem ser transformados em pensamentos positivos, em respeito, aceitação, amor, autocompaixão. Precisamos acabar com o hábito de pensar e falar coisas ruins a nosso respeito. Isso não muda apenas a maneira como você trata o seu corpo – muda também a maneira como vive a sua vida.

Fotos: Fotolia

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