Viajar sozinha: nós estamos gritando, mas as empresas de turismo fingem não ouvir

21 de março de 2018 - Por

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*Nathalia Marques

Existimos e lutamos, constantemente, contra o medo de viajar sozinhas e contra um sistema cultural em que insiste em dizer qual é o nosso lugar. Viajamos e colocamos em prática nosso direito legal de ir e vir. Contudo, infelizmente, enfrentamos diversas barreiras e dificuldades que muitas vezes estão ligadas a uma estrutura social machista.

Mas quem pensa que nos calamos diante disso, se engana. Estamos mais ativas do que nunca ao reivindicar nossos espaços e direitos. Entretanto, parece que algumas empresas de turismo ainda insistem em ignorar nossas vozes. Curiosamente, só lembram da nossa existência por conveniência. Dizem que são a favor da nossa luta no Dia Internacional da Mulher. No entanto, nos outros dias no ano, quando mais precisamos deles, nos ignoram.

E por que digo isso? Simples. Como editora do M pelo Mundo, site de informações e dicas de viagem para mulheres, estou em contato direito com diversas viajantes e sempre acompanho as notícias do setor. Nos últimos dias, observei diversas empresas de turismo se posicionando a favor da luta das mulheres. Fico feliz pela iniciativa, mesmo que isso aconteça apenas no Dia Internacional da Mulher, mas palavras precisam virar ações. Entretanto, isso parece não acontecer, pois também pude observar diversos casos de desrespeito contra nós.

Para que vocês entendam o que estou falando, vou contextualizar com alguns dos casos que tive conhecimento. Em dezembro, por exemplo, a cantora Karol Conka teve que realizar um vídeo denunciando um caso de assédio que aconteceu com duas mulheres no Sheraton Grand Rio Hotel. Segundo a cantora, o hotel não se posicionou de forma adequada para defender as duas mulheres.

Pelo Facebook, o hotel publicou uma nota sobre o caso e foi alvo de críticas.

Além desse caso, outro me indagou muito. No ano passado, a plataforma de resenhas de viagens, TripAdvisor, apagou comentários que denunciavam um caso de estupro que ocorre no Iberostar Resort, na Riviera Maia, México.

Ainda no mesmo ano, uma brasileira estava no Serenata Hostel, em Coimbra, e foi filmada enquanto tomava banho. Quando denunciou o que ocorreu para os funcionários dos hostel, ela foi desacreditada e não recebeu a atenção adequada.

E os casos não param. Este ano, por exemplo, a cantora da Banda Uó, Candy Mel, denunciou que sofreu transfobia no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro. De acordo com o relato da cantora, os policiais do aeroporto coagiram, a detiveram e queriam revistá-la, pois em seu documento havia o nome masculino.

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Ainda este ano, a viajante Vitória Antunes foi vítima de assédio, em um voo da Avianca, ao presenciar o passageiro ao seu lado se masturbando. A viajante imediatamente filmou o crime e, ao tentar denunciar o caso para os funcionários do voo, foi desacreditada. Depois da repercussão da denúncia na internet, a Avianca se posicionou em uma nota vazia de dois parágrafos.

Não vamos nos calar e vocês vão ter que ouvir

Diante de todos os casos que relatei aqui, e de todos os outros que acontecem e não ganham a devida repercussão, eu cheguei à conclusão que muitas empresas de turismo simplesmente estão ignorando as mulheres viajantes. Estão ignorando nossas lutas, estão ignorando nossas denúncias, estão colocando em risco nossas vidas em uma omissão desonesta.

Essa é uma postura que não permitimos. Por isso, vamos continuar denunciando e continuar boicotando empresas que não prezam por nossa segurança. Já passou da hora de muitas empresas de turismo reverem suas estratégias e se posicionarem fortemente a favor dos direitos das mulheres. E quando digo isso não espero como resposta notas vazias e ações sem embasamento. Quando digo isso, desejo mudança. E como mudança entendo que as empresas de turismo precisam investir em diálogos e ações educacionais sobre o direito das mulheres com os seus funcionários, pois isso reflete na postura dos mesmos diante de casos de assédio.

Além disso, as empresas também precisam investir mais em ações que ofereçam segurança para as mulheres. As práticas administrativas também precisam seguir na mesma linha, ou seja, as equipes de mulheres precisam ganhar destaque em cargos de lideranças.

Acredito, fielmente, que empresas que não seguirem nessa linha estarão cada vez mais perdendo credibilidade no mercado. Por isso, repito: querem nos calar? Não vão nos calar, seguimos resistindo, lutando e gritando. Meu conselho para as empresas? É melhor nos ouvir.

*Nathalia Marques é jornalista de formação e conta passagens por diversos veículos de imprensa, mas foi como repórter de turismo que encontrou sua paixão. Ela também é feminista e em 2015 decidiu juntar jornalismo, viagem e empoderamento feminino para criar o M pelo Mundo, site de informações e dicas de viagem para mulheres.

Fotos: Fotolia

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Nathália Marques
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